20 de ago. de 2007

FLORIANÓPOLIS, O PARAÍSO

Ponte Hercílio Luz / foto de Flávio Oliviera


por Luiz Rogério de Carvalho


Aposentado, vindo do interior do Estado, moro na cidade de Florianópolis, no lindo Bairro de Coqueiros onde, além de curtir, extasiado, as belezas naturais das “Praia da Saudade”, “Praia do Meio”, “Itaguaçú” e “Bom Abrigo”, sempre ouço, no rádio e na televisão, assim como também leio nos jornais, que Florianópolis é a mais bela e atraente capital brasileira, a que oferece a melhor qualidade de vida.

Bela e atraente, sem dúvida, a capital catarinense é. Suas mais de quarenta lindas praias, da ilha e do continente, e uma topografia privilegiada fazem desta cidade, um cartão postal capaz de encantar qualquer visitante.

Os visitantes, especialmente aqueles que moram em grandes capitais, sufocados com a poluição, com a insegurança, com o trânsito, congestionado e desumano, desejosos de encontrar o lugar ideal para morar, e pensando no melhor para os seus filhos, muitas vezes levados também pela propaganda, voltando para as suas cidades, muitos tem buscado um meio de mudar para Florianópolis, para viver neste paraíso, abençoado pela natureza com tantas belezas, e lindos ocasos.

Entretanto, esta cidade, que tem nas belezas naturais seu principal atrativo e, por isso, de tão divulgada, hoje já é o refúgio de brasileiros de todas as partes, também sofre por ser bela e encantadora; parte da construção civil vendo na expansão imobiliária grandes possibilidades de negócios, ao lado do progresso que promove, também tem sido a grande vilã na degradação do meio ambiente, e do crescimento desordenado. Para tanto, muitos não se pejam e, para a construção de obras inadequadas e irregulares, que agridem o meio ambiente, ferindo a legislação ambiental, apóiam-se em políticos e servidores públicos corruptos, na ânsia do enriquecimento.

É o que vem acontecendo, ao longo de vários anos, com construções irregulares, aprovadas por funcionários e vereadores desonestos e corruptos que, longe de exercer suas funções na defesa do bem público, aliam-se a “empresários” inescrupulosos que, nenhuma preocupação têm com o desenvolvimento ordenado e o bem estar social.

Felizmente, com a operação “moeda verde”, desenvolvida pela Polícia Federal, Ministério Público e, hoje, também a Câmara de Vereadores de Florianópolis, e na expectativa de que o Judiciário também fará a sua parte, temos a esperança de que a situação se modifique, e a lei passe a ser respeitada, para que nossa capital, apesar dos danos ambientais já sofridos, possa ter, daqui para frente, condições de crescimento disciplinado, respeitada a legislação, especialmente a ambiental, para que sejam preservados os mangues e as áreas verdes de preservação permanente, pois, só assim, teremos condições de dizer que vivemos numa capital que, além da qualidade de vida, também se destaca pelo respeito à lei e ao meio ambiente, com vista à melhor qualidade de vida da população que aqui já vive, e também daqueles que, atraídos pela propaganda, para aqui acorrem.

4 de ago. de 2007

SAUDAÇÃO À BANDEIRA



por Luiz Rogério de Carvalho


Para saudar-te, não tenho a pretensão de fazê-lo com o colorido das frases lapidares do poeta, mas sim, com palavras singelas de um modesto obreiro, e com a sinceridade de seu discurso, que procura representar o sentimento pátrio deste grupo de homens livres, aqui reunidos.

Saúdo-te, Bandeira do Brasil, reafirmando, nesta homenagem, nossa lealdade e fidelidade, desejando que as cores que ostentas sejam o símbolo do que almejamos para o nosso país.

Que o branco, símbolo da paz, jamais seja manchado pelo sangue, na guerra fratricida, nem com a sanha expansionista e hegemônica que, a pretexto de salvaguarda internacional, quase sempre escondendo objetivos econômicos inconfessados, levam paises a guerras injustificadas, com a perda de milhares de vidas de seus filhos.

Que o amarelo, que representa o potencial econômico e a riqueza de nosso país, seja símbolo também da prosperidade nacional, com essa riqueza melhor distribuída entre os brasileiros, e não concentrada numa minoria privilegiada, como acontece atualmente, o que coloca o Brasil na condição de um dos paises que apresenta a maior distância entre a pobreza e a riqueza, na vergonhosa posição de um dos campeões do mundo na concentração de renda, e da conseqüente injustiça social.

Que o verde de nossas florestas, assim como os mananciais naturais que, diretamente, influem na qualidade de vida dos brasileiros, sejam também respeitados, para que possamos deixá-los, como legado, às gerações que nos sucederem.

Que esse verde de nossas matas, teimosamente ainda existentes, seja também o símbolo da esperança, de que os homens públicos, especialmente aqueles eleitos com propostas progressistas e honestas, sejam coerentes depois da sua chegada ao poder, e desempenhem suas atividades, voltados para os sãos interesses da pátria e da coletividade, e não façam da função pública, para a qual foram eleitos, um meio de realização de interesses, meramente pessoais.

Salve Bandeira do Brasil, símbolo augusto da paz que, reverenciada por um povo bom e generoso, representa a esperança de um futuro melhor para todos os brasileiros, no país que sonhamos para nossos filhos, onde a riqueza seja bem distribuída e a desigualdade social deixe de ser a raiz da insegurança, que atormenta toda a sociedade.

Bandeira do Brasil, que paira altaneira, e tem sido sempre estímulo e inspiração do soldado, na defesa da pátria, receba neste instante, dos obreiros da paz, aqui reunidos, a reafirmação de nosso compromisso, de que na defesa da ética, da honra, da moral e da razão, máxima do nosso ideal, jamais nos afastaremos deste caminho, para honrar-te, e defender tudo o que representas.

Finalizando, Bandeira do meu Brasil, saúdo-te, também, com o verso patriótico de Castro Alves:


“AURIVERDE PENDÃO DE MINHA TERRA
QUE A BRISA DO BRASIL BEIJA E BALANÇA,
ESTANDARTE QUE À LUZ DO SOL ENCERRA
AS PROMESSAS DIVINAS DA ESPERANÇA”

1 de ago. de 2007

A VIDA...



por Luiz Rogério de Carvalho


Consternados, choramos quando a morte nos leva um ente querido, pois, mesmo sendo o fim de todos e, talvez, a única certeza que temos na vida, a dor que sentimos na perda é incomensurável, e consolar é apenas uma tentativa que fazemos, na esperança de aliviar a dor de quem padece.

Entretanto, ao longo de nossa caminhada, as perdas, por mais tristes e dolorosas que sejam, representando ferimentos que deixam profundas cicatrizes, têm no tempo, que é nosso aliado, o bálsamo milagroso, o melhor remédio para todos os males.

Com o passar dos anos, embora sentindo saudades, vamos acostumando com a nova realidade, e a vida vai reencontrando seu caminho, e restabelecendo seu ritmo normal.

Não nos conformamos, entretanto, porque não podemos refazer, é com a interrupção de uma vida jovem, que uma morte prematura implacavelmente interrompe, fazendo desaparecer, para sempre, todos os sonhos e projetos.

Era a esperança de viver muito, para viajar, conhecer muitos lugares e fazer novos amigos, de acompanhar o crescimento e a realização dos filhos, sentindo neles sua própria realização, ter a família aumentada com o nascimento dos netos, e neles ver a continuação da sua vida e, então, já na velhice, poder olhar para trás e dizer: foram longos, belos e pródigos os anos de minha vida, apesar das vicissitudes que também concorreram para torná-la ainda mais interessante.

Entretanto, a realidade, com sua cara muitas vezes cruel, se nos apresenta bem diferente daquela com que sonhamos viver, pois acima de nossa vontade, temos de admitir que estão desígnios superiores, bem mais fortes que nosso desejo de ser e de continuar feliz, ao lado da pessoa que amamos.

EDUCAÇÃO E CIDADANIA


por Luiz Rogério de Carvalho


Hoje saí de casa para ir ao Banco. Caminhando na calçada, logo tive de mudar o caminho e andar pela rua, correndo o risco de ser atropelado, porque um carro estava estacionado sobre a calçada, impedindo a passagem dos pedestres.

Um guarda de trânsito estava advertindo a jovem motorista, bonita e vistosa, de que ela seria multada pela infração praticada. Para meu espanto, ouvi a moça perguntar ao guarda, se era proibido estacionar sobre a calçada.

Saindo dali, a poucos metros de distância, atravessando a rua, na faixa de segurança, fiz sinal para um motorista, que vinha em velocidade excessiva, para que reduzisse a marcha, pois eu estava atravessando. Novamente fui surpreendido, desta vez, pela buzina do motorista, que xingou, como se eu estivesse errado, atravessando na faixa, e ele correto, na sua alta velocidade, e ignorando a faixa de segurança.

Há poucos dias, andando pela rua, encontrei dois jovens aparentando idade entre 15 e 17 anos. Do outro lado da calçada, eu os observava.
Andando, conversavam, e um deles com uma latinha na mão, tomava seu refrigerante, com um canudinho. De repente, observei, que sem a menor preocupação ele jogou lata e canudinho na calçada, bem próximo de uma lixeira.

Então, fico pensando, não será o nosso mal distribuído desenvolvimento econômico, acompanhado da conseqüente injustiça social, fruto também de uma sub cultura, da falta de educação em geral, cuja superação é indispensável para que atinjamos o nível de países desenvolvidos? Penso que sim. E essa mudança, necessária no comportamento das pessoas, deve abranger toda a sociedade.

Os adultos, já acostumados com a prática de atos irregulares, como se fossem corretos, para esses, não vejo outro meio de corrigi-los a não ser por meio de dura repressão, com multas, que sejam sentidas diretamente no bolso.

Penso, ainda, que uma mudança de hábitos, mais significativa e permanente só se conseguirá com uma educação eficiente, numa escola que transmita não apenas conhecimento, mas também que ensine às crianças, já na primeira fase escolar, seus direitos e deveres de cidadão.

USINAS HIDRELÉTRICAS


por Luiz Rogério de Carvalho


Ao relutar em ceder às pressões e irritação do Planalto, para conceder licença ambiental para a construção das duas usinas do Complexo Rio Madeira, em Rondônia, uma obra que, além dos benefícios, também poderá vir a causar um enorme prejuízo para o meio ambiente da região, e para o eco sistema de modo geral, a ministra Marina Silva mostrou uma real preocupação com as graves conseqüências que uma aprovação apressada pode produzir.

Foi por uma decisão apressada, com base num estudo de impacto ambiental fraudado, certamente com a conivência de funcionários corruptos, a serviço de empreiteiras, que a usina Barra Grande, em Santa Catarina, foi construída, inundando mais de 6.000 ha de florestas, sendo que mais de 2.000 ha constituídos de floresta primária de araucárias, a maior reserva do sul do país, numa extensão de quase 100 quilômetros, na serra catarinense.

O crime ambiental perpetrado naquela região foi de proporções gigantescas, causando um dano ecológico que jamais será reparado.

Além da floresta nativa, mata ciliar, milhares de araucárias, remanescentes de uma espécie praticamente em extinção, grande parte da vida selvagem, de muitas espécies, que era abrigada pela mata, também sofreu golpe mortal, pois sem abrigo e alimento, o destino fatal foi o completo desaparecimento.

Portanto, ligando os fatos, pela semelhança, é fácil imaginar as pressões políticas que a ministra deve ter sofrido, diante do projeto de construção das duas usinas, Santo Antônio e Jirau, cujo investimento está estimado em mais de 20 bilhões de reais.

Para as empreiteiras e outros “interessados”, cujo principal objetivo é o lucro e a “vantagem”, não importa que a construção represente ameaça de desaparecimento de inúmeras espécies de peixes, principais fontes de alimento da região, que inunde enormes áreas de florestas, fazendo desaparecer importantes espécies da fauna e da flora local.

Por isso, mesmo diante da urgente necessidade que o país tem de aumentar sua capacidade de energia hidrelétrica, a resistência da ministra, de somente ceder licença ambiental depois de profundo e sério estudo do impacto ambiental naquela região amazônica, deve merecer respeito, apoio e o aplauso de toda a sociedade.

30 de jul. de 2007

CÃES ABANDONADOS NA RUA



por Luiz Rogério de Carvalho

Está ficando insustentável e preocupante a situação, criada com a existência de tantos animais perambulando pelas ruas da cidade, com destaque para o bairro de Coqueiros, em Florianópolis, aonde resido.

Alguns cães são vira-latas, nascidos e criados na rua, outros, são cães que, pela aparência de serem animais de boa linhagem, mas, já envelhecidos, devem ter sido abandonados por seus donos que, numa atitude cruel, depois de terem tido companheiros fiéis durante anos, como objetos descartáveis, os jogam na rua, para passar fome, contrair doenças e, na maioria das vezes, morrer sob as rodas de algum veículo, no trânsito movimentado.

Por sorte, existem pessoas bondosas que, preocupadas com o problema, com pena dos animais, adotam alguns mais afortunados, que voltam a ser bem tratados, como todos os cães deveriam ser.

Outras pessoas, dizendo-se amigas dos animais, apenas os tratam na rua, mantendo-os assim expostos aos riscos de atropelamentos, e a contraírem doenças, como a raiva, que pode ser transmitida para seres humanos. É como a esmola, mitiga a fome imediata, mas não dá futuro.

Entretanto, não obstante o desleixo de algumas pessoas, e a preocupação de outras, com os cães que habitam nossas ruas, não se pode isentar de responsabilidade o órgão público responsável pela equação e solução de problemas como esse, que representam também ameaça à saúde pública, e sujeira para as ruas da cidade.

A Prefeitura Municipal tem obrigação de cuidar do problema, seja recolhendo os cães de rua, para serem medicados e esterilizados, a fim de evitar uma proliferação descontrolada, seja para depois de recolhidos e medicados, serem encaminhados para adoção.

A exemplo de muitas prefeituras, de inúmeros municípios brasileiros, também a Prefeitura Municipal de Florianópolis, se não tem, deveria ter um departamento especializado, com a tradicional “carrocinha”, e funcionários treinados para a captura e o recolhimento dos cães de rua, desejosos de serem adotados.

22 de jun. de 2007

Relembrando



por Luiz Rogério de Carvalho


Cabecinha branca, conversador, tranqüilo e sereno, com seus mais de setenta anos de idade, tinha atitudes e pensamentos de jovem, que contagiavam, e era exemplo para todos que o conheciam.

Era um homem franzino, mas com uma grande disposição para o trabalho, os mais rústicos e pesados, que poucos moços o acompanhavam nos árduos afazeres da vida campeira.

Chegando na casa de qualquer vizinho, onde estivessem executando algum trabalho, mesmo sem perguntar se precisavam de ajuda, logo tomava a iniciativa e, sem que se percebesse, já lá estava ele com as mãos na massa, e destacava-se pela eficiência.

Assim era "seu" Jany, pequeno proprietário rural que, além do trabalho na sua propriedade, cuidando de suas criações, que eram uma beleza, também prestava serviços para os fazendeiros da região.

Homem de confiança, e despachado, sempre muito procurado, tinha sua agenda sempre cheia.

Nos domingos e feriados, muitas vezes tive a satisfação de receber a visita daquele velho e saudoso amigo que, chegando sem alarde, na sua bonita e bem encilhada égua tordilha, apeava e ia logo dizendo que vinha para “um bom dedo de prosa”.

Contando suas histórias campeiras, sempre interessantes, na varanda de minha casa, no verão, ou à beira do fogão, no inverno, ao sabor do chimarrão, as horas passavam alegres e despercebidas.

Estimado por todos, na região, era conhecido também pelo fato de que não admitia falhar, nem consigo, nem com os outros.

Contam, seus conhecidos mais antigos que, certa vez, combinou com um fazendeiro da região, que este passaria na sua casa às cinco horas da manhã, para fazerem uma lida na fazenda.

Tendo ido dormir muito tarde, e cansado, quando o fazendeiro chegou, de madrugada, e buzinou na frente da casa, chamando, "seu" Jany acordou-se, assustado, pois tinha perdido a hora de levantar, coisa que nunca lhe tinha acontecido.

Quando o fazendeiro o chamou, ele, de pronto respondeu, lá do quintal: estou aqui "seu" Antônio. Estava com a enxada na mão, capinando, e só de cuecas.

Não sabia o fazendeiro, que ele pulara a janela, e simulava um trabalho, para não ser surpreendido ainda na cama, coisa que jamais lhe acontecera, e que o faria sentir-se ferido no seu orgulho de homem cumpridor de suas obrigações.

Aquele homem simples e trabalhador, bom e prestativo, que nunca se queixou de nenhuma doença, de repente sentiu que suas forças estavam faltando, seu trabalho já não rendia como antes, embora a vontade ainda fosse férrea.

A dor começou a maltratá-lo, a pele foi amarelando, e estava emagrecendo tanto, que teve de ser levado ao hospital, onde foi diagnosticado câncer no fígado, em estado bem avançado.

Fui visitá-lo, no Hospital Nossa Senhora dos Prazeres, em Lages, e ele, cheio de esperança, dizia que precisava voltar logo para o sítio, porque tinha as ovelhas para tosquiar, a roça de milho para colher, e os terneiros, recém nascidos, para cuidar.

Não viveu muito, pois, embora acostumado às árduas lutas da vida campeira, não conseguiu vencer a última batalha, contra a doença. Em pouco tempo o levamos para a sua última morada, no cemitério da Vigia.

Na lembrança de seus amigos, e de quem o conheceu, ainda continua vivo e alegre, contando suas longas e divertidas estórias e histórias, acontecidas nos campos da Coxilha Rica.


13 de jun. de 2007

Tributo à Memória de meu Pai



por Luiz Rogério de Carvalho

José Arruda de Carvalho, Zeca, como carinhosamente era chamado, foi um homem sempre preocupado com a humanidade, que viveu seu tempo como um verdadeiro cristão.
A caridade foi uma das principais preocupações em toda sua vida. Dividir o pão com seu semelhante constituía sua grande alegria, pois o sofrimento de quem sentia fome era, para ele, motivo de grande tristeza. Por isso, da porta de sua casa, jamais alguém voltou de mãos vazias.

Quando morou em Lages, ainda novo, muitas vezes recolheu, para dormir na sua “Alfaiataria Carvalho”, mendigos que estavam dormindo na rua, e expostos ao inclemente frio do inverno serrano; lembro-me, também, de uma ocasião, em Florianópolis, quando um desconhecido dizendo estar com sua filha doente, internada no Hospital Infantil, disse que não tinha onde dormir, por não poder pagar um dormitório. Meu pai, consternado com a situação aflitiva de seu semelhante, não teve dúvidas, o levou para dormir em seu apartamento, não se preocupando com o risco que poderia ter corrido, por hospedar um estranho.

A bondade, com que sempre tratou todos, crianças, jovens ou velhos, fez dele um homem que, mesmo discordando de opiniões contrárias às suas e, às vezes, de forma veemente, nunca abandonou a urbanidade em suas relações pessoais.
Generoso para todos e, extremamente amoroso com seus familiares e amigos, sempre foi um defensor intransigente dos oprimidos e tolerante com os fracos, nos quais sempre encontrava alguma qualidade para enaltecer.

Por toda as suas qualidades e virtudes, que o fizeram credor de amizade e simpatia em todos os lugares por onde passou, tenho a certeza de que sua alma encontra-se em algum lugar sagrado, onde habitam os espíritos iluminados.
Seu corpo material que, consternados, devolvemos à terra, certamente, reintegrado à natureza, também viverá, nos mares, nas praias, nas águas dos riachos e das cascatas, no cantar sonoro dos pássaros, no perfume das flores e no verde das florestas que, em vida, ele tanto amou e preservou, plantando e regando árvores, tantas, que alegre viu frutificar.

Da sua existência na terra, percorrida com trabalho e dificuldades, mas, também permeada de amor, esperança e alegria, ficou, como legado mais precioso, para seus filhos e amigos, a lembrança imorredoura e o exemplo de uma vida digna.


6 de jun. de 2007

Amigos Inseparáveis



por Luiz Rogério de Carvalho


Eram cinco amigos, inseparáveis. Volnei, o mais velho, o líder, aquele que sempre orientava os outros nas brincadeiras, e até nas molecagens que faziam na rua, nem sempre muito ortodoxas. Era o filho mais novo de uma família numerosa. O pai dele, “major” Otacílio, cartorário, homem sisudo, de poucas palavras, mas, de muito bom coração, e preocupado com o futuro do filho e de seus amigos, que ele sabia ser uma turminha da pesada, preocupante...

A casa do Volnei era o ponto de reunião da turma, e refúgio daquele que, durante a semana, por algum motivo estava, temporariamente, de bronca com seus pais.
Tinha também o Emir, o “turco gordo”, filho do seu Jorge da venda, e da dona Samira. Ela, sempre alegre e bonachona, nos convidava para saborear os saborosos quitutes da cozinha árabe que, como ninguém, sabia fazer. O Emir, grande gozador, era o algoz do seu irmão mais velho, que tocava violino e pensava ser um futuro “Paganini”. Altino, o italiano, estava sempre risonho, contando piadas picantes e fazendo planos para o futuro. Era filho do seu Otto e da dona Custódia. De seu Otto, a gente pouco sabia, pois, pouco estava em casa. Sabíamos que era contador de uma madeireira, de um parente, e mais nada. Já a mãe do Altino, a dona Custódia, sempre chamando a todos de meus filhos, era de uma grande doçura, igual à geléia de uva que fazia. Embora trabalhasse muito e, por causa de um antigo reumatismo, sentisse fortes dores nas mãos, estava sempre alegre e disposta.

Paulo e Rafael, filhos do alfaiate, eram dois meninos que muito cedo começaram a trabalhar, como jornaleiros, e agora faziam parte daquela divertida “turminha da pesada”, de estudantes gazeteiros que, aos domingos, depois de vender, na fila do cinema, suas velhas revistas “de quadrinhos”, invariavelmente, iam assistir ao seriado do Flash Gordon, no antigo Cine Carlos Gomes, que tinha o apelido de “Cine Poeira”.

Tudo corria bem com a turma, até o dia em que, tentado a brincar com o perigo, Volnei pegou o revólver do seu Otacílio e, com ele na cintura, convidou os outros amigos para um passeio no campo, nas proximidades da cidade. Depois de muito caminhar, sentados para descansar, à beira da estrada, Volnei, ingenuamente, brincando com o 38, sem perceber, fez disparar um tiro que, para acabar com a alegria da aventura, teve um triste destino. A bala atingiu a barriga do Altino, e atravessou o seu intestino, fazendo várias perfurações.

Desesperados com o fato de ver o amigo ferido, e sangrando, todos juntos, na primeira carona que apareceu, balançando aos pulos da velha camionete Chevrolet 46, levaram Altino para o hospital, onde chegaram suando de nervosos e de medo.
Depois de uma longa espera, a primeira informação foi de que o amigo estava sendo operado, e seu estado era crítico.

Foram dias de angústia e expectativa, já que a vida do amigo corria real perigo.
Os amigos, e também suas mães, em suas orações, pediam a salvação e o pleno restabelecimento de Altino. Suas preces foram ouvidas, e depois de muitos dias hospitalizado, o “italiano” apareceu, muito pálido, pois perdera muito sangue, mas, já em plena recuperação.

Foi grande a alegria de todos ao saberem que o amigo estava, finalmente, salvo.
O impacto que esse fato causou naquela turminha, sem dúvida foi um marco divisório em suas vidas. Talvez aquele período de espera, angustiante, e a torcida pela vida do companheiro, tenham servido para reflexão e para a tomada de um novo rumo.

Todos voltaram a interessar-se mais pelos estudos, e maior senso de responsabilidade instalou-se em cada um, fazendo com que, embora subsistisse a mesma amizade, ela tenha amadurecido.
Os anos passaram-se, e os amigos ficaram distantes, no tempo e no espaço.

Volnei foi servir no Batalhão de Suez, ficou por lá bastante tempo, quando voltou, não demorou muito em Lages, logo foi para o Rio de Janeiro, onde concluiu o curso superior.Ingressou na Varig, que parece ter sido seu primeiro e único emprego. Muito competente e dedicado, acabou promovido a gerente, em Los Angeles, onde encerrou a carreira, com merecida aposentadoria.

Não agüentando a saudade, voltou ao Brasil. Hoje, casado e feliz, mora no Rio de Janeiro, em Copacabana.

Altino, entre Blumenau e Itajaí, sempre idealista, e sempre interessado em atividades culturais e literárias, acabou abrindo uma livraria em Blumenau. Mais preocupado com a literatura que com o comércio, a “Livraria Don Quixote” teve vida curta. Foi para Itajaí, estudou direito e hoje é cartorário em Itapema, cidade praiana do litoral catarinense. Continua o mesmo italiano de cabelo espetado, simpático e amigo de todo o mundo, e quando duvidam das histórias de sua juventude, que alegremente conta aos amigos, abaixa a calça e mostra, na barriga, a cicatriz da operação, feita para consertar o estrago que uma bala 38 fez no seu intestino.

Emir, o alegre e gozador “turco gordo”, com toda a família, mudou-se para Curitiba, formou-se em engenharia, casou-se e continua morando na capital paranaense, onde dirige uma bem sucedida empresa de construção civil.

Paulo, depois de mudar-se para Blumenau, onde estudou e teve uma longa atuação como líder estudantil, para manter-se, trabalhou em várias empresas, terminando como propagandista de laboratório até mudar-se para Porto Alegre, onde se formou em Direito. Ingressou no serviço público e, hoje, também aposentado, advoga um pouco, levando uma vida tranqüila, pois os filhos já estão formados e encaminhados.

Rafael, cedendo aos encantos da primeira paixão, casou-se muito novo, ainda franguinho. Por isso, necessitando trabalhar para sustentar a família, interrompeu os estudos, e muito cedo deixou Lages e a turma, indo morar em Blumenau, onde só muito mais tarde voltou a estudar. Concluiu o curso de Direito, advogou durante algum tempo, ingressou no serviço público, e hoje está aposentado, morando em Florianópolis, onde contempla as belezas da ilha, reúne-se com os amigos, escreve algumas reminiscências, e curte os netos.

Antes de mudar-se para Florianópolis, Rafael, já aposentado, e morando no sítio, na região de Lages, num belo dia, chegando para almoçar no restaurante do Lages Hotel, ainda pensando nas compras que iria fazer, para atender às necessidades de sua gostosa e curta vida rural, eis que, na porta do hotel, foi surpreendido com a agradável presença do velho amigo Volnei, que não via há mais de 40 anos. Depois de um grande e afetuoso abraço, Volnei disse que estava ali porque tinha vindo do Rio de Janeiro, com um único objetivo: na noite anterior tinha promovido um reencontro festivo com os amigos, o que acontecera no melhor clube da cidade, e com traje à rigor. Durante a conversa, entre risos de alegria, Volnei contou da aflição da sua procura pelos amigos, e da tristeza de não ter encontrado dois da antiga “turminha da pesada”. Um deles era o Paulo, de quem, por mais que procurasse, não conseguira o endereço. O outro, era Rafael que, embora estando a poucos quilômetros dos amigos festeiros, morava numa região rural e de difícil comunicação.

Este encontro foi breve, pois Volnei esperava a condução que logo o levaria ao aeroporto, no seu retorno para o Rio de Janeiro, mas, também foi o tempo suficiente para, durante o almoço, recordar bons momentos, e marcar uma data para um novo reencontro e, desta vez, esperam contar com a sorte, para reunir os cinco amigos da antiga “turminha da pesada”.

5 de jun. de 2007

Em São Joaquim


por Luiz Rogério de Carvalho

Era lá pelo ano de 1946, nossos pais morando no sítio das “Três Pedrinhas” que, na época, ainda não tinha escola, Pedro e eu estudando em São Joaquim, morávamos na casa da vó Júlia, ali bem pertinho do Grupo Escolar Manoel Joaquim Pinto, onde estudávamos.

De manhãzinha, depois de chamados pela vó Júlia, que nos acordava bem cedo, era nossa obrigação colocar os pirulitos nos tabuleiros, pois a vó Júlia que levantara muito mais cedo já os tinha preparados. Estavam prontinhos para serem vendidos por nós, durante o recreio do colégio. Essa venda representava um complemento importante na renda de minha vó, viúva e com parcos recursos. Mulher de valor, que tendo ficado viúva aos vinte e oito anos, sozinha, conseguiu criar e educar seus seis filhos.

Pedro e eu tínhamos nosso tempo de recreio tomado pela tarefa de vender os gostosos pirulitos que vovó fazia. Por isso, pouco tempo nos sobrava para as brincadeiras, que eram representadas sempre pelos brinquedos da época. Jogo de bolinhas de vidro, bilboquê, pião, etc. Só depois de vendidos todos os docinhos de minha vó é que nós íamos brincar, aproveitando o restinho do tempo de recreio.

Como compensação, depois de feitos os deveres da escola, à tarde, podíamos brincar à vontade.

Nossa diversão preferida, especialmente no verão, era ir nadar no “pocinho” do seu Júlio Cantalice. Lá, passávamos boa parte da tarde, nadando e mergulhando nas águas claras do rio São Mateus.
Para alegria da garotada, que lotava o “pocinho” , bem próximo, havia um pomar de maçãs, de propriedade também do seu Júlio, onde a gente se divertia e se deliciava com as maçãs, que o velho cultivava, tudo entre risos e brincadeiras, até que o seu Júlio nos descobria, e assustados corríamos em disparada, fugindo do local, alguns ainda pelados, com as roupas na mão, e comendo as maçãs.

4 de jun. de 2007

A BOLA



por Luiz Rogério de Carvalho


Em São Joaquim, minha terra natal, moramos em muitos lugares, tantos, que nem todos tenho na lembrança. Alguns lugares, entretanto, foram mais marcantes e, ainda hoje, lembro muito bem das coisas que aconteciam na nossa infância de meninos pobres, moleques, alegres e felizes.

A casinha de tijolos aparentes, no matadouro, foi, com certeza, uma daquelas onde moramos, que deixou marcas mais profundas na minha lembrança, pois foi bem pertinho dali, num campinho onde jogávamos nossas peladas de futebol, que fui inaugurar a minha primeira bola, que ganhei num tão esperado natal.

Passada a festa natalina, no dia seguinte, faceiro e alegre, com a bola debaixo do braço, rumei para o campinho, no outro lado da rua. De tão contente, nem vi que ali estava o famoso nego Tito, filho do Zé Tereza, garotão bem maior que todos os outros, e muito malvado com os menores.

Muito orgulhoso com a minha bola, fui logo anunciando que foi meu presente de natal, e que todos estavam convidados para jogar, na sua inauguração.
Foi aí que apareceu o danado nego Tito. Chegou, prepotente e arrogante, pegou a bola, que era de borracha, e com um violento chute mandou direto a uma cerca de arame farpado.

Nem é preciso dizer que a bolinha, que chegara pulando de alegria, igual a mim, projetada com a enorme força do nego Tito, encontrando a primeira farpa aguda do arame, ali mesmo caiu, murcha e triste.
Triste, porque nem conseguiu ser a esperada alegria da molecada que, sem outra alternativa, voltou a jogar com a velha e surrada bola de meia.
Triste também foi a volta para casa, chorando a perda da minha primeira bola de futebol, de borracha, mas que bola linda.

22 de mai. de 2007

LEÃO BAIO



por Luiz Rogério de Carvalho

Uma linda Leoa e seu filhote, saindo de um capão de mato atravessaram a estrada, olhando para os lados, meio desconfiados. Entraram na mata, na esperança de que ali estariam protegidos e teriam alimento. Durante muito tempo vagaram à procura de caça, para saciar a fome. Cansados, desistiram de procurar alguma presa, pois a mata, antes uma grande floresta, agora era pequena. Foi o que sobrou, na substituição da mata nativa por uma imensa floresta de pinus.

Depois de andar muito pela floresta, já cansada, a Leoa viu ser inútil procurar alimento, pois debaixo daquelas árvores exóticas poucos animais sobrevivem. Foi, então, que resolveu buscar alimento na propriedade de quem cortara a mata, que sempre fora abrigo de toda a vida selvagem. Andando mais um pouco, encontrou um rebanho de ovelhas, acompanhadas de alguns cordeiros. Com a fome apertando seu estômago, e já sem leite para alimentar o filhote, a Leoa não teve dúvidas, atacou o primeiro cordeiro. Saciada a fome, continuou caminhando sem rumo à procura da floresta perdida.

No dia seguinte, toda a vizinhança estava sabendo que o fazendeiro, que já perdera outros cordeiros, agora teve mais um prejuízo, causado pelo ataque do “terrível” Leão Baio. Formou-se, então, com o auxílio de vizinhos, um bem armado grupo, que saiu à caça da fera “assassina”.
Armados de espingardas, e orientados por cães treinados e bem alimentados, logo encontraram os rastros. Nos campos próximos, ouviram-se os latidos e, de repente, tiros de espingarda, seguidos de profundo silêncio.

A Leoa e seu filhote, depois de muito tempo fugindo de seus perseguidores, foram mortos, bem próximo de uma grande represa, que alimenta uma usina hidrelétrica, construída aonde antes existia uma grande e linda floresta de araucárias e inúmeras outras espécies de árvores nativas.

Na casa do fazendeiro, que teve o "grande prejuízo" com a morte do cordeiro, na parede, como troféu, está o couro de um leãozinho. No chão, um lindo tapete, feito com o couro da grande e bela Leoa.
Empobrecidos, em toda a região, ainda choram fauna e flora.