12 de fev de 2010

O BEIJA-FLOR



por Luiz Rogério de Carvalho


Preocupado com a degradação do meio ambiente, e com destruição da flora e da fauna, ele era um vigilante nas proximidades de sua residência, onde, freqüentemente, desativava os alçapões que alguns garotos, sem uma esclarecida consciência ecológica, armavam para aprisionar passarinhos, para viverem cativos em apertadas gaiolas.

Certo dia, fazendo a costumeira limpeza no jardim, viu um ninho de beija-flor, cuidadosamente construído entre os galhos de uma roseira em flor, onde estavam depositados três ovinhos.

A alegria da descoberta foi evidente e, desde então, passou a observar o dono do ninho, o lindo beija-flor que, após seu passeio diário para a colheita do néctar nas flores das imediações, à tardinha, voltava para chocar seus ovinhos.

Os dias passavam, cheios de alegre e curiosa expectativa pelo desenvolvimento da futura família do lindo beija-flor, quando, numa tarde, viu que três cabecinhas se movimentavam dentro do minúsculo ninho, protegido com as folhas e ornamentado com as rosas. Foi então que, com maior dedicação passou a observar e cuidar de seus novos visinhos. Chegando do trabalho, passando próximo da pequenina residência, com emoção e alegria, acompanhava o crescimento dos pequeninos beija-flores.

Mas, mesmo morando no jardim, para as avezinhas nem tudo foram flores, pois, numa manhã de sol radiante, quando saía de sua garagem para ir ao trabalho, nosso amigo sentiu seu coração bater mais forte quando viu, voando com grande velocidade e, possivelmente trazendo alimentos para seus filhotes, a mãe beija-flor, que se chocou com o vidro do seu automóvel, caindo irremediavelmente morta. Pegando a avezinha, e olhando para os filhotinhos, agora órfãos, sentiu que a única alternativa possível seria a adoção.

Com habilidade e carinho, sobre o ninho, que ficou sem a proteção do corpo materno, aproveitando os galhos da roseira construiu uma cobertura, e passou a alimentar as pequeninas aves com mel misturado com água, que fornecia com um conta-gotas, na esperança de que tudo desse certo, e deu, pois a cada dia via progresso, e sentia a alegria dos filhotes, e sua, ao receberem o precioso alimento.

As pequenas aves cresceram e, já emplumadas, ensaiavam seu primeiro vôo, até que, numa linda tarde ensolarada, quando nosso amigo chegou para alimentá-las, viu que duas já tinham alçado vôo, ficando apenas uma para receber o último alimento do dia.

Foi lindo, pois depois de introduzir sua lingüinha no conta-gotas, num gesto de agradecimento, representando o grupo, bateu asas e voou livre, em busca de novas flores.

O ninho ficou vazio, mas o coração do nosso amigo ficou cheio de alegria, por ter contribuído com uma pequena parcela para a continuação da vida.

Um comentário:

Pedro Luso disse...

Rogério,

Tenho acompanhado os teus trabalhos (contos, crônicas e artigos) aqui no BLOG DO TIO RUJA, e sempre me surpreendo com cada texto que publicas, com tua escrita enxuta, dizendo apenas o necessário e com o rítmo que a boa escrita exige.

Hoje ocorreu o mesmo com essa bela crônica O BEIJA-FLOR, na qual contas uma comovente história de um beija-flor que morre ao bater contra o vidro do carro de um amigo teu, e deixa seus filhotes recém-nascidos 'aos cuidados' desse amigo, que os ampara, assumindo o lugar da mãe, alimentando-os até o momento que deixam a casa, onde tinham o ninho, e alçam vôo para uma nova vida.

Parabéns pelo cuidado e paciência que tiveste (imagino que sejas esse amigo) para criar esses filhotes órfãos, e pela sensibilidade com que escreveste esse caso de amor entre o homem e os filhotes do beija-flor.

Um grande abraço,
Pedro.