21 de dez de 2007

VIOLÊNCIA NO TRÂNSITO


por Luiz Rogério de Carvalho

É realmente assustador, quando vemos as estatísticas de mortes ocorridas no trânsito, nas estradas e cidades brasileiras, onde milhares de vidas todos os anos são ceifadas, levando a dor e a tristeza a muitas famílias.

Em nosso país, campeão de mortes no trânsito, morre por ano, mais gente do que morreu em toda a guerra do Vietnã. Isso tem que ter um fim, pois, além da perda e da dor que a morte causa, o número de vítimas por morte de trânsito está levando a saúde, no Brasil, a uma situação insustentável, fazendo com que os serviços públicos de atendimento à saúde da população logo entrem em colapso, pois os hospitais e serviços de pronto-socorro, em quase todo o país já atendem número exagerado de acidentados no trânsito.

Numa tentativa de também reduzir o número de acidentes de trânsito, o Ministro da Saúde, em boa hora, está iniciando uma campanha para mudar as normas de publicidade de bebidas alcoólicas, responsáveis pela maioria dos acidentes, embora sabendo que vai encontrar enorme resistência por parte do lobby dos fabricantes, e também por parte da mídia, que tem nesse segmento importante faturamento.

Preocupado com esta triste realidade, o Grupo RBS, numa elogiável iniciativa, lançou a campanha “VIOLÊNCIA NO TRÃNSITO. ISSO TEM QUE TER FIM”, visando uma conscientização de todos os motoristas, para a gravidade do problema, e também estimulando a educação de trânsito, que deve começar já na família e na escola.

Entendemos, ser a educação e a conscientização o melhor caminho para se chegar a um trânsito ideal, humanizado. Entretanto, diante da realidade que temos, com motoristas que não respondem positivamente a uma proposta civilizada, a pesada punição, com multas e penas severas, que sejam aplicadas independente da condição social do infrator, é o mais forte argumento para inibir, ou reduzir, essa carnificina em que se transformou o trânsito no Brasil.

19 de dez de 2007

ENGANAÇÃO


por Luiz Rogério de Carvalho


É incrível a desfaçatez, com que alguns ditos homens públicos tentam iludir as pessoas, o contribuinte, o consumidor de serviços públicos.

Ainda ontem, aqui em Florianópolis vi, na TV, uma advertência da CASAN aos consumidores, para que aumentem a capacidade de seus reservatórios, para evitar a falta d’água, especialmente nos dias de verão, que se aproxima.

Como é que a população vai armazenar água, de forma abundante, se ela já é escassa nas estações de tratamento e nos reservatórios da CASAN? Só mesmo se algum milagre está sendo planejado pelos seus dirigentes, pois, objetivamente, nada tem sido feito para aumentar a produção e distribuição, e nos livrar desse terrível mal anunciado, que inferniza todos os habitantes desta linda e mal cuidada Capital, ameaçando o ramo turístico, importante setor de nossa economia.

Em entrevista na TV, o presidente da CASAN justificava a possível e eminente falta d’água na cidade de Florianópolis durante o verão de 2008, alegando que o aumento do número de turistas, esperados para a temporada de verão, será o grande vilão, e único responsável pela escassez do produto.

Esses homens públicos, na campanha eleitoral prometem resolver os problemas como o da energia elétrica, para evitar a repetição de apagões; nos palanques e nos comícios, anunciam que falta d’água será coisa do passado, pois a produção será aumentada e a rede ampliada, para atender à demanda, aumentada com fluxo do turismo, “verdadeira vocação de nossa cidade”.

Eleitos e reeleitos, esquecem as promessas e, achando que somos todos idiotas e desmemoriados, inventam desculpas as mais esfarrapadas, para esconder sua incompetência e despreocupação com a causa pública. A população que, esperançosa, acreditou nas anunciadas soluções para os problemas existentes, continua sofrendo as agruras que lhe são impostas por “administradores” que, mais parecem preocupados com seus interesses pessoais, e com a reeleição.

Esta preocupação, agora parece ainda mais evidente, pois, com o anúncio às vésperas de um ano eleitoral, da construção, em Florianópolis, de um metrô de superfície, cuja licitação já está sendo anunciada, antes mesmo de ter sido ouvida a comunidade, através de seus órgãos representativos, como orienta o Estatuto das Cidades e o bom senso, para que uma obra dessa proporção somente seja executada, se provada que é a melhor alternativa para a solução dos graves problemas do nosso trânsito já caótico.

E ainda querem que acreditemos na sinceridade de intenção, quando, nos debates na televisão, nos comícios eleitorais nas praças públicas, prometem tudo fazer para o progresso do Estado, das cidades, e o bem estar de seus habitantes. É querer demais.

6 de dez de 2007

PRESOS ACORRENTADOS



por Luiz Rogério de Carvalho


Palhoça é um município que faz parte da grande Florianópolis, esta, uma cidade cuja propaganda, além de destacar as belezas paradisíacas, tem sido mostrada como a capital brasileira que apresenta a melhor qualidade de vida.

Tanto Florianópolis quanto Palhoça, sua interligada vizinha, são cidades privilegiadas pela natureza, com uma orla marítima de uma beleza de causar inveja. Entretanto, a propaganda superlativa não me parece que esteja em consonância com a realidade destas duas cidades catarinenses.

Há algum tempo, aqui neste Blog, escrevi sobre a carência de esgoto sanitário na cidade de Florianópolis, o mau cheiro reinante na Avenida Beira Mar Norte, e uma usina de tratamento do esgoto ilhéu, instalada no aterro da Baia Sul, de onde é exalada uma catinga insuportável.

Confirmando o que escrevi, há poucos dias, enorme mancha preta apareceu próximo daquela usina, gerando a suspeita de que resíduos sólidos do esgoto estão sendo jogados no mar pela CASAN, poluindo, ainda mais, as praias da ilha e do continente, nas proximidades.

Agora, para desencanto de quem vive na Grande Florianópolis e, com orgulho, admira as belezas naturais regionais, cultura e história, surge na imprensa nacional e internacional, a notícia de que aqui, bem juntinho a nós, na cidade de Palhoça, por que numa cela de Delegacia de Polícia, de nove metros quadrados, apinhada com dezessete presos, por já não ter mais ar respirável, resolveu-se o problema acorrentando os presos em pilares, na área externa do prédio.

Há poucos dias, os brasileiros de boa índole, foram surpreendidos com a notícia, também internacional, de que uma menor, no Pará, fora mantida presa em uma cela com outros dezessete homens, que a estupraram da forma mais humilhante possível.

Agora, é o Estado de Santa Catarina que, de forma vergonhosa, é exposto ao mundo por ter voltado aos tempos do Brasil colônia, ou à era medieval, e manter acorrentados em áreas externas de uma delegacia, presos que não cabiam numa cela de nove metros quadrados, que já abrigava 17 pessoas.

Convém salientar que a Polícia Militar está cumprindo o seu dever, prendendo bandidos, a maioria produtos da exclusão social, que levam o tormento da insegurança a toda a sociedade.

A Delegada, que determinou o acorrentamento dos presos, melhor teria feito, como forma de protesto pela omissão do Governo do Estado , se os tivesse encaminhado para o Centro Administrativo do Governo, pois é dele a responsabilidade e a obrigação de construir presídios. Aliás, essa foi uma das promessas de duas campanhas eleitorais – aumentar o efetivo policial e construir presídios - para dar à população a segurança almejada, e merecida.

24 de nov de 2007

A PRÓSTATA



por Luiz Rogério de Carvalho


Idoso, acostumado a conviver com os pequenos problemas de saúde, próprios da sua idade, de repente sente que seu nariz já não é o mesmo, pois uma rinite inesperada, coisa que desconhecia, o obriga a procurar um otorrinolaringologista, para livrar-se de terrível mal-estar.

O médico, jovem atencioso, depois das perguntas e exames de praxe, emite a receita com o medicamento indicado, e que deveria livrá-lo da incômoda rinite.

O tratamento tem início com a ingestão e aplicação da medicação prescrita. Os sintomas, extremamente desagradáveis, pouco a pouco vão cedendo à ação dos remédios, cujo gosto mais desagradável já foi sentido na farmácia, na passagem pelo caixa.

Passados alguns dias, já aliviado dos incômodos nasais, subitamente é surpreendido por enorme desconforto urinário. Paciente disciplinado que, religiosamente, uma vez por ano, enfrentando o constrangimento do exame visita o urologista, para saber da situação de sua próstata, apressadamente, procura seu médico na ânsia de voltar a urinar bem. Não agüentava mais aquele sofrimento.

O médico, competente, com experiência de longos anos, e sabendo do tamanho da próstata do seu paciente, depois do novo e desagradável exame e, diante de todas as queixas, sentencia: cresceu muito, é benigna, mas é possível que seja necessária uma cirurgia. Recomenda exames complementares, e o retorno após a conclusão dos exames.

Passados poucos dias, eis que tudo volta ao normal. Urina fácil, alegre e feliz, quase como um garotão. Também, nem tanto...

Curioso, vai ler a bula do remédio receitado pelo jovem médico, para a cura da rinite e, surpreso, lê: “este medicamento pode causar distúrbios na micção, como retenção urinária, não indicado a quem tem hipertrofia prostática”.

Respira aliviado, e pensa: “O diabo sabe mais por ser velho que por ser diabo”.

23 de nov de 2007

A LEI...



por Luiz Rogério de Carvalho

A notícia foi amplamente divulgada pelos jornais de todo o mundo. Aquela da jovem que, na Arábia Saudita, depois de estuprada 14 vezes, mas por estar acompanhada de um homem, em público, contrariando as leis do país, foi condenada pela Suprema Corte à prisão de 6 meses, e a receber 200 chibatadas.

A repercussão da notícia, em quase todos os paises, revoltou as pessoas, pela violência, desumanidade e discriminação da mulher que, em muitos paises do oriente, ainda é considerada objeto.

Nos Estados Unidos, onde, apesar de todas as mazelas existentes, pode-se dizer que existe democracia, o Presidente Buch, campeão do intervencionismo, que se preocupa, prioritariamente, com a situação econômica de seu país, ignorando problemas mundiais, como o aquecimento global, onde o seu país é o maior responsável pelas emissões de gás, depois de todos os apelos recebidos para interferir junto ao Governo Saudita, para que a Corte reverta a decisão, ele insiste em omitir-se, para não perder o apoio dos sauditas à política intervencionista no Iraque.

A indignação de todos diante da desumanidade da decisão da Suprema Corte saudita é compreensível, especialmente no ocidente, onde cresce a preocupação pela igualdade de direitos.

Embora criticando e não aceitando a lei saudita, que discrimina de forma desumana e vergonhosa a mulher, temos de admitir que, mesmo diante da condenação de muitos paises, a Corte Suprema aplicou a lei, porque ela existe, e lei é para ser cumprida.

Bem diferente do que acontece no Brasil, onde muitas leis não são sequer regulamentadas e, quando são, ficam longe de serem cumpridas, pois aqui existe a cultura da lei que pega, e da lei que não pega. Isto, sem considerar que, para tangenciar a lei, no Brasil existe a influência do poder político ou do poder econômico, muitas vezes dos dois.

22 de nov de 2007

TRANSFERÊNCIA DE ÍNDICE DE CONSTRUÇÃO



por Luiz Rogério de Carvalho

floripamanha.org / A cidade que queremos. » Blog Archive » CPE sugere alterar índice de construção

Um comentário para 'CPE sugere alterar índice de construção'
Luiz Rogério de Carvalho Diz: 22/11/07 às 15:10

Vejo a "transferência de índice de construção" como uma excrescência jurídica, idéia que mais parece ter saído da cabeça de mafiosos que de legisladores; um artifício que só beneficia o setor imobiliário, pois, por seu intermédio, o ramo imobiliário amparado por lei, na ganância do lucro, vem construindo gigantescos espigões, em bairros que tinham gabaritos já regulamentados, e compatíveis com suas infra-estruturas: de esgoto, água e trânsito, entre outras.

Sou proprietário e morador do bairro de Coqueiros e, ontem, dia 21/11/2007, participei de uma reunião promovida pelo núcleo distrital Abraão, Bom Abrigo, Coqueiros e Itaguaçú, com o objetivo de discutir o Plano Diretor Participativo, que contou com a presença de técnicos do IPUF e da SUSP.

Foi uma apresentação da legislação existente, com os técnicos do IPUF mostrando também a necessidade de algumas modificações no Plano Diretor. Já o técnico representante da SUSP, limitou-se a uma apresentação da legislação existente, como funciona o Órgão e, subliminarmente, fez a defesa da "transferência de índice de construção".

Os bairros de Coqueiros, Itaguaçú, Bom Abrigo e Abraão, por suas belezas naturais, aliadas à proximidade do centro da capital, têm sido o foco dessa famigerada lei, apresentando, como resultado, uma verdadeira esplosão de construções que, hoje, já é responsável pelo caos no trânsito que, sem alternativa de novas vias de escoamento, está infernizando a vida dos moradores desses bairros.

28 de out de 2007

A GÊNESE E O CRIME


por Luiz Rogério de Carvalho

Cesare Lombroso, professor, e respeitado criminologista italiano, foi autor da teoria de que o criminoso tem um biótipo característico, e que a descendência tem grande influencia no seu comportamento anti-social. Relacionou as características físicas do indivíduo à psicopatologia criminal, ou a tendência inata de indivíduos com comportamento criminal.

Não obstante a importância que o Dr. Lombroso teve na sua época, hoje a sua teoria está totalmente descartada, pois sabe-se que o fator preponderante na formação da conduta criminosa é, indubitavelmente, o meio ambiente em que o indivíduo nasce, cresce e vive.

De uma família bem estruturada, com pai e mãe de boa formação moral, e renda suficiente para alimentar, vestir e educar os filhos, salvo as exceções, que confirmam a regra, só pode-se esperar o surgimento de bons elementos, úteis à sociedade.

Isto acontece quando a sociedade organizada, através de seus órgãos representativos, tem a preocupação de criar e manter escolas, creches, hospitais e toda a estrutura de proteção social, que a Constituição Federal estabelece como direito do cidadão.

No Brasil, onde o modelo econômico, historicamente, tem a renda nacional concentrada nas mãos de poucos, durante décadas não houve a preocupação de estabelecer políticas que visassem a diminuir a distância que separa os ricos dos pobres.

Hoje, como resultado, enfrentamos os mais agudos problemas sociais, com um enorme contingente de jovens oriundos das camadas mais pobres que, sem educação formal, e sem trabalho, portanto sem oportunidade de ascender socialmente, enveredaram para a criminalidade, levando à classe trabalhadora e ordeira a angustia da insegurança.

Aqui no Estado de Santa Catarina o Governador, quando assumiu, disse que a segurança seria uma das prioridades no seu governo, entretanto, até agora o projeto de construção de novas unidades, para abrigar e recuperar os menores infratores, ainda não saiu do papel, se é que existe tal projeto.

Entendemos que a delinqüência juvenil é um cancro social sim, que tem de ser combatido pelo Estado, com políticas efetivas de segurança, mas também, e sobretudo, de inclusão social.

Ainda há poucos dias, no Jornal do Almoço da TV RBS, líder de audiência em Florianópolis, uma reportagem mostrava um menor infrator que, por falta de vaga em estabelecimento de reeducação do Estado, estava algemado no porta-malas do veículo policial à espera de um lugar para recebê-lo.

O comentarista do jornal, de dedo riste, manifestava sua posição no sentido de que os menores infratores devem ser tratados como bandidos. Devem ser colocados em reformatórios, no estilo antigo, com tratamento unicamente policial.

Batendo na mesa, espumando de raiva, dizendo ser maldito o Estatuto da Criança e do Adolescente , o comentarista, provavelmente saudoso dos tempos dos porões da ditadura militar, dizia que tais reformatórios deveriam receber o nome de general Golbery do Couto e Silva.

Pelo nome sugerido, certamente tais reformatórios preconizados pelo comentarista, teriam suas câmaras de tortura equipadas com instrumentos como “choque elétrico”, “pau de arara”, “pimentinha”, “cadeira do dragão”, "afogamento" e outros, que foram usados nos porões do famigerado DOI CODI.

24 de out de 2007

CRIME ECOLÓGICO



por Luiz Rogério de Carvalho


Em matéria divulgada no Jornal Nacional, no dia 20/10/2007, foi mostrada a situação em que se encontra a Mata Atlântica, no Estado de Santa Catarina que, devido ao desmatamento indiscriminado, conta com menos de 7% de florestas, da mata original.

A reportagem é importante, para mostrar que depois da destruição de 93% da mata atlântica, ainda continua o desmatamento, caminhando para a rápida extinção de várias espécies, como as remanescentes araucárias, canelas e imbuias, para dar lugar à plantação de pinus.

É inacreditável que esse crime ecológico esteja sendo praticado sem o conhecimento do IBAMA e da FATMA(Fundação Catarinense para Defesa do Meio Ambiente), pois basta transitar pelas rodovias BR 282, 116 e 470 para ver que, mesmo às suas margens, no lugar das muitas matas antes existentes, hoje estão sendo plantados milhares de pinus, essa árvore exótica, verdadeira praga para a natureza, pois embaixo dela nada cresce. A fauna e a flora tornam-se praticamente impossíveis.

A Região Serrana do Estado de Santa Catarina onde a paisagem destacava-se pela beleza do verde de seus campos, e pela imponência de exuberantes araucárias, mescladas com a diversidade de outras árvores nativas, hoje está vestida de um verde sem esperança, representado por uma mata homogênea, com finalidade econômica sim , mas, sem levar em conta o alto custo para o meio ambiente, pois até as margens de rios e ribeirões estão sendo desmatadas.

Se, ao longo das rodovias, é visível o desmatamento para o plantio de pinus, é fácil imaginar o tamanho do dano ambiental que vem ocorrendo mais para o interior do Estado, onde a fiscalização deve ser praticamente inexistente, pois, conforme mostrou o Jornal Nacional, o desmatamento e os mares verdes de pinus, que estão invadindo as remanescentes matas nativas do Estado de Santa Catarina só foram descobertos por meio de fotografias feitas por satélite.

Uma das partes mais bonitas da Região Serrana Catarinense, a Coxilha Rica, abriga uma rica fauna e diversificada flora, e é conhecida pela beleza e qualidade de seus campos. Ali, a criação de gado de corte sempre representou a força da pecuária regional.

Pois até aquela maravilhosa região está sendo invadida pela febre do pinus e, se não for controlado o seu plantio, logo a veremos transformada numa imensa floresta de árvores exóticas, ilegalmente substituindo os verdes campos, e a mata nativa, habitat natural de tantos animais selvagens, incluindo o Leão Baio, o puma brasileiro.

22 de out de 2007

A ARTE DE SER FELIZ



por Mauro Roberto Cunha - Outubro/1964 - (In Memoriam)


NASCER, VIVER e MORRER – imperativo da natureza que tem acompanhado a marcha da humanidade na consecução de seu fim, estabelecido pelo Criador.

As plantas brotam da terra, reproduzem-se e murcham. Os animais procriam, proliferam a espécie, e desaparecem no mesmo anonimato em que nasceram.

O homem, entretanto, se tem idêntico princípio e o mesmo fim, se vem do pó e ao pó retorna, é o único ser vivo a quem foi dada a bela e difícil tarefa de VIVER. Viver, em sua acepção mais ampla, não significa anteceder a morte, mas tem um sentido que muitas vezes escapa à medida comum de nossos sentidos, de nossa percepção consciente.

VIVER é lutar sem, contudo, deixar escravizar-se pelos louros da vitória ou pela humilhação da derrota. É combater o vício praticando a virtude. É proteger os fracos sem tornar-se poderoso.

VIVER é semear o amor sobre a terra para que as gerações alimentem-se de seus frutos. É ver no Belo e no Perfeito um estímulo, mas jamais pretender igualar-se a eles. Viver é o mesmo que pisar no mundo sendo senhor de seus passos, contemplar o infinito sem prostrar-se à incredulidade.

VIVER é enfim, nascer todos os dias, para si mesmo e para a vida, descobrindo e valorizando o tesouro que há em cada uma de nós.

É nesse complexo sistema de atos em que o fenômeno humano atua com força criadora, porque uma lei colocou no homem um enigmático tesouro jacente e mandou que ele o descobrisse, medindo seu valor, avaliando sua extensão e projetando-o multidimensionalmente .

E quem agiu de acordo com a vontade dessa lei, terá cumprido a sua inalienável missão, terá acendido sobre a terra uma centelha de eternidade. Terá conseguido desvendar, finalmente, o segredo da verdadeira ARTE DE SER FELIZ.

19 de out de 2007

EMPRÉSTIMO CONSIGNADO



por Luiz Rogério de Carvalho

O Governo, após constatação, em auditoria feita pelo Tribunal de Contas da União, acaba de proibir, pelo prazo de 90 dias, a concessão de empréstimos consignados - aquele com desconto direto em folha de pagamento - a funcionários públicos federais, pois existe a suspeita de que graves irregularidades estão ocorrendo, especialmente, o desconto superior a 30% do salário do aposentado.

Oxalá, essa proibição temporária seja transformada em definitiva, estendendo-se aos funcionários públicos estaduais e municipais, pois esse tipo de empréstimo consignado tem sido motivo da desgraça de grande número de aposentados que, pressionados pelas dificuldades, ingenuamente, assumem compromissos acima de suas possibilidades, cujos descontos em folha de pagamento representam significativo desfalque no orçamento, já apertado.

É comum ouvir que aposentados, sensibilizados com as dificuldades dos filhos, netos ou amigos, fizeram empréstimos em seus nomes, e que tiveram de pagar, pois o repasse prometido não foi cumprido.

Para as instituições financeiras, cuja voracidade não tem limite, essa modalidade de empréstimo, sem nenhum risco, representa um excelente negócio, que tem contribuído, de forma substancial, para engordar ainda mais os seus lucros.

Para os Bancos e Financeiras, o empréstimo consignado, por ser seguro e gerar um enorme volume de negócios, é tão importante que, nas esquinas das principais cidades brasileiras, já é comum ver pessoas entregando folhetos convidando os aposentados a contrair o famigerado empréstimo.

Em uma das mãos, está a oferta do DVD pirata, na outra, a propaganda do empréstimo consignado.

15 de out de 2007

O CHEQUE



por Luiz Rogério de Carvalho

Era o único filho de um pai muito rico que, mesmo sabendo que o moço era um baita malandro, nunca deixou de fazer até o impossível, para ver se o danado acertava o rumo na sua doida vida.

Para estudar, foi colocado no melhor colégio da região serrana, que era dirigido pelos padres franciscanos, conhecidos como bons educadores e disciplinadores. Foi pura perda de tempo, pois o rapaz, nem tinha chegado à metade do ano, e já estava de volta à casa paterna, alegando que não dava para agüentar aqueles padres loucos de bravos.

Ficando em casa, agora sem estudar, tinha todo o tempo para incomodar os pais, que já não sabiam mais o que fazer para encaminhar o meninão.

Completando dezoito anos, a primeira coisa que fez foi pedir ao pai, que lhe comprasse um caminhão, pois sua vocação era ser um caminhoneiro, e viajar pelas estradas do Brasil, transportando mercadorias.

Sem convicção, mas na esperança de que o filho, que não queria mesmo estudar, se realizasse nessa atividade, comprou o desejado caminhão, e lá se foi o nosso personagem fazer sua viagem inaugural.

Depois de duas semanas, quando o pai começava a acreditar que tinha encontrado o meio de vida ideal para o filho tornar-se independente, e deixar de incomodar, como era o seu costume, eis que ele chega em casa, de ônibus, dizendo que tinha quebrado o caminhão e, por isso o vendera. Só que dinheiro já não tinha mais, pois, soube-se depois, tudo fora perdido no jogo, e gasto em festas na zona, quando dizia que, com ele, não tinha puta pobre.

Agora queria comprar um automóvel, pois dizia que o aluguel de carro de praça era um bom negócio. Tanto insistiu, que conseguiu convencer o pai a comprar o tal automóvel.

Antes de por o carro na praça para alugar, numa curva, perdeu a direção e bateu num muro destruindo toda a frente do veículo. Para não mandar consertar, vendeu o carro por menos de 10% do valor. O que sobrou torrou à noite numa mesa de jogo de cartas.

Desta vez, o pai perdeu a paciência e resolveu admoestá-lo severamente, dizendo que não daria mais nem um tostão para ser gasto irresponsavelmente. O velho já estava cansado de tanto pagar as dívidas que o filho fazia, e que não pagava. Já era conhecido como o pai do maior caloteiro da cidade.

Os cheques que ele dava, freqüentemente voltavam por falta de fundos. Notas Promissórias, assinadas por dívidas de jogo, já não eram mais aceitas, por isso até andou apanhando de um credor numa certa madrugada.

Sem crédito nem com o pai, o nosso personagem, bom de conversa, resolveu ir para o interior, na tentativa de ali enganar alguém que não o conhecesse. Conseguiu.

Comprou à prazo, uma égua muito bonita, que levou para disputar uma corrida na raia da cidade. Pois a égua ganhou a penca, e logo apareceu alguém interessado em comprá-la. Depois de muita pechincha, resolveu vendê-la por 1.200,00

O comprador disse que daria 800,00 em dinheiro, à vista, e o restante seria pago com um cheque de terceiro. O negócio foi fechado, mas, quando o comprador da égua entregou o cheque de 400,00, a resposta veio rápida, e taxativa: cheque meu eu não aceito.

12 de out de 2007

JORNAL A NOTÍCIA



por Luiz Rogério de Carvalho

Na democracia, pressupõe-se, além da plena liberdade de pensamento e expressão, também a possibilidade de externar o pensamento das diferentes correntes de opinião, através dos meios de comunicação, sem que haja cerceamento ou patrulhamento ideológico.

Nesse contexto, a diversidade dos meios de comunicação é fator importante para a divulgação das idéias, sejam elas de esquerda ou de direita.

Assim, por mais que se queira defender o direito de grupos econômicos, de se expandir no ramo das comunicações, adquirindo empresas de televisão ou jornais regionais, quando essa expansão se apresenta de forma a permitir que determinado grupo detenha, na prática, o quase monopólio da comunicação, especialmente da imprensa escrita, onde os jornais, inegavelmente, representam relevante papel na formação da opinião, então, pode-se dizer que alguma coisa está errada.

A liberdade de expressão, embora existente, nem sempre é acompanhada pela possibilidade de acesso aos meios de divulgação, quando estes são oligopólios.

É inegável que os meios de comunicação, especialmente a imprensa escrita, através dos jornais, são fortes formadores de opinião na região em que atuam.

Assim sendo, quanto maior o número de jornais existentes em determinada região, maior é a possibilidade de criação e divulgação de idéias.

Por entender a imprensa, especialmente o jornal, com essa dimensão na construção e defesa de uma democracia sólida, foi que tomei conhecimento, com tristeza e preocupação, da transferência do jornal A Notícia, veículo de comunicação regional que, durante mais de 80 anos, serviu ao Estado, especialmente à região norte de Santa Catarina, com independência e eficiência, para um poderoso grupo de comunicação que, com muita competência, vem tornando-se hegemônico no sul do país.

29 de set de 2007

VIOLONISTAS


por Luiz Rogério de Carvalho

Os amantes da boa música, especialmente aqueles que gostam da música instrumental, certamente têm na Internet um grande aliado, pois basta um pouco de paciência para que sejam encontradas nos diversos sites, músicas de todos os gêneros.

Para quem, entre os vários instrumentos musicais existentes, tem preferência pelo violão, é muito fácil encontrar um verdadeiro manancial de instrumentistas que, com seus estilos próprios, e competência de gênio, deleitam nossos ouvidos.

Há pouco tempo encontrei o site http://www.luckysevenradio.com/ que, entre os muitos estilos musicais que oferece, destaco, para meu gosto, “Easy Classical”, "Solo Piano, “Piano Jazz” e “Guitar”. Este último toca a maioria dos grandes violonistas, mortos e vivos, de todo o mundo.

Ali, a gente tem a oportunidade de ouvir excelentes e famosos violonistas como Paco de Lucia, John Willians, Estéban, Julian Brean, Alex Fox, e muitos outros que, pelo seu virtuosismo, já são consagrados no mundo inteiro.

Foi ali, que conheci boa parte da obra musical do brasileiro Carlos Barbosa-Lima, radicado nos Estados Unidos, que vem sendo aclamado pela crítica especializada por suas interpretações, que vão de obras eruditas de Bach, Handel e Scarlatti, a contemporâneas da área popular de autores como Antônio Carlos Jobim e Bobby Scott.
Sua habilidade ao violão provocou de Tom Jobim o seguinte comentário: “Nas mãos de Carlos Barbosa-Lima, o violão se transforma numa orquestra”.

No site, a gente também ouve músicas tocadas pelo extraordinário músico brasileiro Laurindo Almeida que, radicado nos Estados Unidos desde 1.947, já falecido, e pouco conhecido no Brasil.
Para se ter idéia da importância de Laurindo Almeida, na música instrumental, basta dizer que ao longo de sua carreira participou da trilha sonora de cerca de 800 filmes, ganhou 6 prêmios Grammy, além de uma série de outros prêmios da indústria fonográfica e cinematográfica, consolidando uma respeitável carreira como compositor e arranjador, além de instrumentista.

Só lamento não ter ouvido ainda, neste ótimo site, músicas executadas pelo mestre Baden Powell, assim como também senti a falta de músicas tocadas pelo extraordinário, e precocemente falecido, aos 32 anos de idade, o brasileiro Rafael Rabelo, violonista que Antônio Carlos Jobim dizia ser o melhor do Brasil, e que Paco de Lucia disse ser o melhor do mundo.

26 de set de 2007

FLORIANÓPOLIS - URGENTE



por Luiz Rogério de Carvalho


Florianópolis, esta bela ilha, privilegiada pela natureza, foi dotada de montes, praias e rios, num desenho tão lindo que encanta e seduz todos os visitantes.

Essa beleza, que tem sido cantada e divulgada como forma de propaganda, para atrair turistas e novos moradores, tem sido usada, também, como meio de atrair investidores, especialmente na área da construção civil.

Para esse segmento econômico essa política tem sido altamente positiva, pois o que se vê é um surto de construções, em todas as regiões da ilha.

Entretanto, como em tudo existem dois lados, também aqui temos que ver o outro lado, o negativo.

Nossa linda ilha cresceu, mas, infelizmente, não teve das autoridades responsáveis a necessária preocupação de dotá-la de um eficiente sistema de esgoto, para dar à população um serviço de saneamento a altura de suas necessidades, e compatível com as belezas naturais tão decantadas.

A omissão do poder público, em muitos casos agravada pela ação de alguns de seus representantes, em concessões indevidas, com certeza tem sido responsável pelo fato de que, hoje, nossa ilha conte com menos de 20% da população atendida com serviço de esgoto, índice inferior ao de capitais do nordeste.

O resultado desse descaso pode ser verificado na situação de muitas de nossas praias, que não apresentam condições ideais de serem freqüentadas, assim como na catinga que temos de suportar na avenida Beira-Mar Norte, a mais badalada, e também no aterro da Baía Sul, onde foi instalada uma usina de fedor, que funciona muito bem.

Agravando a situação de nossa maltratada bela ilha, temos a expansão das invasões nas encostas dos morros, aonde as áreas verdes, de preservação permanente, aos poucos vão sendo engolidas pelo avanço dos casebres, que a deterioração do tecido social obriga as pessoas pobres a construir.

Portanto, para que nossa linda ilha possa ser legada aos nossos sucessores com a beleza que encontramos, e com a qualidade de vida que alardeamos, é urgente que as autoridades responsáveis, especialmente aquelas eleitas com o compromisso de bem gerir a coisa pública, se conscientizem de que as obras públicas necessárias devem ser construídas, o meio ambiente respeitado, e que o bem comum deve estar sempre à frente dos interesses particulares.

25 de set de 2007

TV CULTURA




por Luiz Rogério de Carvalho


Os programas de televisão apresentados pela TV CULTURA de São Paulo, que em muitas cidades brasileiras vêm sendo retransmitidos por estações de TVs públicas locais, diferenciados da maioria da programação da televisão brasileira aberta, são de inquestionável utilidade, desempenhando um papel educativo de extraordinário valor no desenvolvimento cultural de nossa gente.

Entretanto, aqui em Florianópolis, capital catarinense, parece que ainda não existe um real interesse na retransmissão desse valioso canal de televisão cultural e educativa, pois mesmo existindo uma estação retransmissora aqui, é péssima a qualidade das imagens que transmite, fazendo com que poucas pessoas mantenham seus aparelhos ligados no Canal 2.

8 de set de 2007

VIVENDO NO INTERIOR



por Luiz Rogério de Carvalho


Meu sogro, fazendeiro já nos seus 88 anos, um dia chamou os filhos e disse que estava decidido em vender a fazenda, e foi logo dizendo que parte do resultado seria dividido entre os filhos.

Diante dessa decisão tomei a iniciativa de pedir para que a parte que tocaria à minha mulher não fosse vendida, pois eu desejava construir uma casa no terreno, que fica na bela região da Coxilha Rica. Isso porque eu já pensava no que fazer na minha aposentadoria, que era viver uma boa parte dela em contato com a natureza, longe do barulho e dos problemas da cidade.

O projeto foi feito, e a casa foi construída. Ficou uma beleza e, com o tempo, ainda ficou mais bonita, pois melhoramentos e embelezamentos foram agregados.

É verdade que durante vários anos, antes de mudar-me para lá, a propriedade dos sonhos funcionou como uma amante argentina, pois morando em Blumenau a cerca de 300 quilômetros de distância, no máximo uma vez por mês gozava as delícias da região serrana. Isto sem contar com as despesas sempre crescentes, para a manutenção e conservação do imóvel que, por ser pequeno, não dava retorno econômico apreciável. Valia muito mais pelo sossego e a paz de espírito que o lugar oferecia.

Depois de aposentado ainda advoguei durante alguns anos, até que resolvi fechar o escritório e ir morar no sítio, que fica a 50 quilômetros da cidade de Lages.

Com a intenção de morar dez anos na tranqüilidade da doce vida do campo, o tempo corria rápido e eu já pensava em segurá-lo, pois era muito boa a vida no interior. Mas, como nos nossos planos nem sempre conta só a nossa vontade, a morte de minha sogra, que era nossa companheira no sítio fez com que minha mulher ficasse com muito medo de continuar morando longe da cidade e de familiares.

Dizia que dois velhos sozinhos são muito vulneráveis. Acabou vencendo, e hoje moramos em Florianópolis, nesta bela e agradável capital que, com seus encantos, procura me fazer esquecer da nossa morada ao lado de lindas araucárias, onde as gralhas, as curucacas e os sabiás faziam mais belas as nossas manhãs.

Foram seis, dos dez anos programados para morar naquele pequeno paraíso, onde a paz e a tranqüilidade fazem parte da verde paisagem serrana. O que ficou foram as amizades feitas ao longo desse tempo inesquecível, pois a gente do interior, simples e sincera, ainda sem a necessidade de viver correndo, dedica mais tempo aos amigos, as prosas são mais longas, os "causos" mais interessantes.

7 de set de 2007

A CEGUEIRA EVITÁVEL



por Luiz Rogério de Carvalho


Consta que aproximadamente uma criança fica cega a cada minuto no planeta.

Uma pesquisa divulgada pela Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica (SBOP) revela que 80% da cegueira mundial poderiam ser evitadas, sendo 60% curáveis e 20% previsíveis, se o teste do reflexo vermelho, ou simplesmente o “teste do olhinho” fosse adotado como medida de rotina em todas as maternidades.

Estima-se que existam cerca de 400 mil crianças cegas no mundo, e 94% estão nos paises em desenvolvimento. No Brasil, estima-se que existam entre 25 e 30 mil crianças cegas.

Esta estatística, que é assustadora, revela também que na maioria dos serviços de neonatologia do Brasil os olhos dos recém-nascidos não são adequadamente examinados.

Como resultado, mais de 50% dos recém-nascidos só têm a alteração descoberta quando estão cegos ou quase cegos para o resto da vida. Revela o estudo da SBOP , que as seqüelas seriam prevenidas em grande parte se o problema fosse tratado no tempo certo.

O “teste do reflexo vermelho” recebe esse nome porque, quando a luz é projetada no olho do bebê sadio, um reflexo vermelho ou amarelo-avermelhado proveniente da retina se apresenta. Tanto a intensidade como a coloração do reflexo devem ser semelhantes em ambos os olhos, ou seja, simétricos.

A reflexão da coloração avermelhada normal da retina ocorre porque os meios oculares (córnea, cristalino e vítreo) encontram-se transparentes. “A ausência do reflexo ou a presença de reflexos diferentes em um ou outro olho podem significar alguma alteração congênita. Neste caso, a criança deve ser encaminhada ao oftalmologista com urgência”. É o que explica Célia Nakanami, chefe do setor de oftalmopediatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

O teste também pode ser realizado nas consultas rotineiras em crianças maiores, de qualquer idade, e não só no berçário, pois muitas doenças passíveis de diagnóstico pelo método podem aparecer tardiamente.

Estima-se que atualmente 0,4% dos recém-nascidos seja portador de catarata congênita. Esse número é decorrente da alta incidência de infecções congênitas como a rubéola. Já nos paises desenvolvidos sua maior causa é genética.

A catarata congênita é detectada pelo teste do olhinho, quando apresenta um reflexo vermelho que não é visto de maneira clara ou uniforme. Daí a importância do diagnóstico precoce desse tipo de catarata, para a eficácia do tratamento cirúrgico, procedimento que poderá deixar danos irreversíveis se realizados muito mais tarde. Outras doenças dos olhos também podem ser diagnosticadas precocemente através do “teste do olhinho”

O teste, que dizem ser simples e rápido, pode ser feito pelo próprio pediatra do hospital ou da maternidade, e o único equipamento necessário para o exame é um oftalmoscópio direto, cujo investimento, pelo custo-benefício é muito baixo.

Pela importância de que o “teste do olhinho” se reveste, o município de São Paulo, a capital carioca, e várias outras cidades do Brasil já adotaram esse procedimento nos seus sistemas de saúde. Espera-se que sejam seguidos pelos demais municípios brasileiros.

20 de ago de 2007

FLORIANÓPOLIS, O PARAÍSO

Ponte Hercílio Luz / foto de Flávio Oliviera


por Luiz Rogério de Carvalho


Aposentado, vindo do interior do Estado, moro na cidade de Florianópolis, no lindo Bairro de Coqueiros onde, além de curtir, extasiado, as belezas naturais das “Praia da Saudade”, “Praia do Meio”, “Itaguaçú” e “Bom Abrigo”, sempre ouço, no rádio e na televisão, assim como também leio nos jornais, que Florianópolis é a mais bela e atraente capital brasileira, a que oferece a melhor qualidade de vida.

Bela e atraente, sem dúvida, a capital catarinense é. Suas mais de quarenta lindas praias, da ilha e do continente, e uma topografia privilegiada fazem desta cidade, um cartão postal capaz de encantar qualquer visitante.

Os visitantes, especialmente aqueles que moram em grandes capitais, sufocados com a poluição, com a insegurança, com o trânsito, congestionado e desumano, desejosos de encontrar o lugar ideal para morar, e pensando no melhor para os seus filhos, muitas vezes levados também pela propaganda, voltando para as suas cidades, muitos tem buscado um meio de mudar para Florianópolis, para viver neste paraíso, abençoado pela natureza com tantas belezas, e lindos ocasos.

Entretanto, esta cidade, que tem nas belezas naturais seu principal atrativo e, por isso, de tão divulgada, hoje já é o refúgio de brasileiros de todas as partes, também sofre por ser bela e encantadora; parte da construção civil vendo na expansão imobiliária grandes possibilidades de negócios, ao lado do progresso que promove, também tem sido a grande vilã na degradação do meio ambiente, e do crescimento desordenado. Para tanto, muitos não se pejam e, para a construção de obras inadequadas e irregulares, que agridem o meio ambiente, ferindo a legislação ambiental, apóiam-se em políticos e servidores públicos corruptos, na ânsia do enriquecimento.

É o que vem acontecendo, ao longo de vários anos, com construções irregulares, aprovadas por funcionários e vereadores desonestos e corruptos que, longe de exercer suas funções na defesa do bem público, aliam-se a “empresários” inescrupulosos que, nenhuma preocupação têm com o desenvolvimento ordenado e o bem estar social.

Felizmente, com a operação “moeda verde”, desenvolvida pela Polícia Federal, Ministério Público e, hoje, também a Câmara de Vereadores de Florianópolis, e na expectativa de que o Judiciário também fará a sua parte, temos a esperança de que a situação se modifique, e a lei passe a ser respeitada, para que nossa capital, apesar dos danos ambientais já sofridos, possa ter, daqui para frente, condições de crescimento disciplinado, respeitada a legislação, especialmente a ambiental, para que sejam preservados os mangues e as áreas verdes de preservação permanente, pois, só assim, teremos condições de dizer que vivemos numa capital que, além da qualidade de vida, também se destaca pelo respeito à lei e ao meio ambiente, com vista à melhor qualidade de vida da população que aqui já vive, e também daqueles que, atraídos pela propaganda, para aqui acorrem.

4 de ago de 2007

SAUDAÇÃO À BANDEIRA



por Luiz Rogério de Carvalho


Para saudar-te, não tenho a pretensão de fazê-lo com o colorido das frases lapidares do poeta, mas sim, com palavras singelas de um modesto obreiro, e com a sinceridade de seu discurso, que procura representar o sentimento pátrio deste grupo de homens livres, aqui reunidos.

Saúdo-te, Bandeira do Brasil, reafirmando, nesta homenagem, nossa lealdade e fidelidade, desejando que as cores que ostentas sejam o símbolo do que almejamos para o nosso país.

Que o branco, símbolo da paz, jamais seja manchado pelo sangue, na guerra fratricida, nem com a sanha expansionista e hegemônica que, a pretexto de salvaguarda internacional, quase sempre escondendo objetivos econômicos inconfessados, levam paises a guerras injustificadas, com a perda de milhares de vidas de seus filhos.

Que o amarelo, que representa o potencial econômico e a riqueza de nosso país, seja símbolo também da prosperidade nacional, com essa riqueza melhor distribuída entre os brasileiros, e não concentrada numa minoria privilegiada, como acontece atualmente, o que coloca o Brasil na condição de um dos paises que apresenta a maior distância entre a pobreza e a riqueza, na vergonhosa posição de um dos campeões do mundo na concentração de renda, e da conseqüente injustiça social.

Que o verde de nossas florestas, assim como os mananciais naturais que, diretamente, influem na qualidade de vida dos brasileiros, sejam também respeitados, para que possamos deixá-los, como legado, às gerações que nos sucederem.

Que esse verde de nossas matas, teimosamente ainda existentes, seja também o símbolo da esperança, de que os homens públicos, especialmente aqueles eleitos com propostas progressistas e honestas, sejam coerentes depois da sua chegada ao poder, e desempenhem suas atividades, voltados para os sãos interesses da pátria e da coletividade, e não façam da função pública, para a qual foram eleitos, um meio de realização de interesses, meramente pessoais.

Salve Bandeira do Brasil, símbolo augusto da paz que, reverenciada por um povo bom e generoso, representa a esperança de um futuro melhor para todos os brasileiros, no país que sonhamos para nossos filhos, onde a riqueza seja bem distribuída e a desigualdade social deixe de ser a raiz da insegurança, que atormenta toda a sociedade.

Bandeira do Brasil, que paira altaneira, e tem sido sempre estímulo e inspiração do soldado, na defesa da pátria, receba neste instante, dos obreiros da paz, aqui reunidos, a reafirmação de nosso compromisso, de que na defesa da ética, da honra, da moral e da razão, máxima do nosso ideal, jamais nos afastaremos deste caminho, para honrar-te, e defender tudo o que representas.

Finalizando, Bandeira do meu Brasil, saúdo-te, também, com o verso patriótico de Castro Alves:


“AURIVERDE PENDÃO DE MINHA TERRA
QUE A BRISA DO BRASIL BEIJA E BALANÇA,
ESTANDARTE QUE À LUZ DO SOL ENCERRA
AS PROMESSAS DIVINAS DA ESPERANÇA”

1 de ago de 2007

A VIDA...



por Luiz Rogério de Carvalho


Consternados, choramos quando a morte nos leva um ente querido, pois, mesmo sendo o fim de todos e, talvez, a única certeza que temos na vida, a dor que sentimos na perda é incomensurável, e consolar é apenas uma tentativa que fazemos, na esperança de aliviar a dor de quem padece.

Entretanto, ao longo de nossa caminhada, as perdas, por mais tristes e dolorosas que sejam, representando ferimentos que deixam profundas cicatrizes, têm no tempo, que é nosso aliado, o bálsamo milagroso, o melhor remédio para todos os males.

Com o passar dos anos, embora sentindo saudades, vamos acostumando com a nova realidade, e a vida vai reencontrando seu caminho, e restabelecendo seu ritmo normal.

Não nos conformamos, entretanto, porque não podemos refazer, é com a interrupção de uma vida jovem, que uma morte prematura implacavelmente interrompe, fazendo desaparecer, para sempre, todos os sonhos e projetos.

Era a esperança de viver muito, para viajar, conhecer muitos lugares e fazer novos amigos, de acompanhar o crescimento e a realização dos filhos, sentindo neles sua própria realização, ter a família aumentada com o nascimento dos netos, e neles ver a continuação da sua vida e, então, já na velhice, poder olhar para trás e dizer: foram longos, belos e pródigos os anos de minha vida, apesar das vicissitudes que também concorreram para torná-la ainda mais interessante.

Entretanto, a realidade, com sua cara muitas vezes cruel, se nos apresenta bem diferente daquela com que sonhamos viver, pois acima de nossa vontade, temos de admitir que estão desígnios superiores, bem mais fortes que nosso desejo de ser e de continuar feliz, ao lado da pessoa que amamos.

EDUCAÇÃO E CIDADANIA


por Luiz Rogério de Carvalho


Hoje saí de casa para ir ao Banco. Caminhando na calçada, logo tive de mudar o caminho e andar pela rua, correndo o risco de ser atropelado, porque um carro estava estacionado sobre a calçada, impedindo a passagem dos pedestres.

Um guarda de trânsito estava advertindo a jovem motorista, bonita e vistosa, de que ela seria multada pela infração praticada. Para meu espanto, ouvi a moça perguntar ao guarda, se era proibido estacionar sobre a calçada.

Saindo dali, a poucos metros de distância, atravessando a rua, na faixa de segurança, fiz sinal para um motorista, que vinha em velocidade excessiva, para que reduzisse a marcha, pois eu estava atravessando. Novamente fui surpreendido, desta vez, pela buzina do motorista, que xingou, como se eu estivesse errado, atravessando na faixa, e ele correto, na sua alta velocidade, e ignorando a faixa de segurança.

Há poucos dias, andando pela rua, encontrei dois jovens aparentando idade entre 15 e 17 anos. Do outro lado da calçada, eu os observava.
Andando, conversavam, e um deles com uma latinha na mão, tomava seu refrigerante, com um canudinho. De repente, observei, que sem a menor preocupação ele jogou lata e canudinho na calçada, bem próximo de uma lixeira.

Então, fico pensando, não será o nosso mal distribuído desenvolvimento econômico, acompanhado da conseqüente injustiça social, fruto também de uma sub cultura, da falta de educação em geral, cuja superação é indispensável para que atinjamos o nível de países desenvolvidos? Penso que sim. E essa mudança, necessária no comportamento das pessoas, deve abranger toda a sociedade.

Os adultos, já acostumados com a prática de atos irregulares, como se fossem corretos, para esses, não vejo outro meio de corrigi-los a não ser por meio de dura repressão, com multas, que sejam sentidas diretamente no bolso.

Penso, ainda, que uma mudança de hábitos, mais significativa e permanente só se conseguirá com uma educação eficiente, numa escola que transmita não apenas conhecimento, mas também que ensine às crianças, já na primeira fase escolar, seus direitos e deveres de cidadão.

USINAS HIDRELÉTRICAS


por Luiz Rogério de Carvalho


Ao relutar em ceder às pressões e irritação do Planalto, para conceder licença ambiental para a construção das duas usinas do Complexo Rio Madeira, em Rondônia, uma obra que, além dos benefícios, também poderá vir a causar um enorme prejuízo para o meio ambiente da região, e para o eco sistema de modo geral, a ministra Marina Silva mostrou uma real preocupação com as graves conseqüências que uma aprovação apressada pode produzir.

Foi por uma decisão apressada, com base num estudo de impacto ambiental fraudado, certamente com a conivência de funcionários corruptos, a serviço de empreiteiras, que a usina Barra Grande, em Santa Catarina, foi construída, inundando mais de 6.000 ha de florestas, sendo que mais de 2.000 ha constituídos de floresta primária de araucárias, a maior reserva do sul do país, numa extensão de quase 100 quilômetros, na serra catarinense.

O crime ambiental perpetrado naquela região foi de proporções gigantescas, causando um dano ecológico que jamais será reparado.

Além da floresta nativa, mata ciliar, milhares de araucárias, remanescentes de uma espécie praticamente em extinção, grande parte da vida selvagem, de muitas espécies, que era abrigada pela mata, também sofreu golpe mortal, pois sem abrigo e alimento, o destino fatal foi o completo desaparecimento.

Portanto, ligando os fatos, pela semelhança, é fácil imaginar as pressões políticas que a ministra deve ter sofrido, diante do projeto de construção das duas usinas, Santo Antônio e Jirau, cujo investimento está estimado em mais de 20 bilhões de reais.

Para as empreiteiras e outros “interessados”, cujo principal objetivo é o lucro e a “vantagem”, não importa que a construção represente ameaça de desaparecimento de inúmeras espécies de peixes, principais fontes de alimento da região, que inunde enormes áreas de florestas, fazendo desaparecer importantes espécies da fauna e da flora local.

Por isso, mesmo diante da urgente necessidade que o país tem de aumentar sua capacidade de energia hidrelétrica, a resistência da ministra, de somente ceder licença ambiental depois de profundo e sério estudo do impacto ambiental naquela região amazônica, deve merecer respeito, apoio e o aplauso de toda a sociedade.

30 de jul de 2007

CÃES ABANDONADOS NA RUA



por Luiz Rogério de Carvalho

Está ficando insustentável e preocupante a situação, criada com a existência de tantos animais perambulando pelas ruas da cidade, com destaque para o bairro de Coqueiros, em Florianópolis, aonde resido.

Alguns cães são vira-latas, nascidos e criados na rua, outros, são cães que, pela aparência de serem animais de boa linhagem, mas, já envelhecidos, devem ter sido abandonados por seus donos que, numa atitude cruel, depois de terem tido companheiros fiéis durante anos, como objetos descartáveis, os jogam na rua, para passar fome, contrair doenças e, na maioria das vezes, morrer sob as rodas de algum veículo, no trânsito movimentado.

Por sorte, existem pessoas bondosas que, preocupadas com o problema, com pena dos animais, adotam alguns mais afortunados, que voltam a ser bem tratados, como todos os cães deveriam ser.

Outras pessoas, dizendo-se amigas dos animais, apenas os tratam na rua, mantendo-os assim expostos aos riscos de atropelamentos, e a contraírem doenças, como a raiva, que pode ser transmitida para seres humanos. É como a esmola, mitiga a fome imediata, mas não dá futuro.

Entretanto, não obstante o desleixo de algumas pessoas, e a preocupação de outras, com os cães que habitam nossas ruas, não se pode isentar de responsabilidade o órgão público responsável pela equação e solução de problemas como esse, que representam também ameaça à saúde pública, e sujeira para as ruas da cidade.

A Prefeitura Municipal tem obrigação de cuidar do problema, seja recolhendo os cães de rua, para serem medicados e esterilizados, a fim de evitar uma proliferação descontrolada, seja para depois de recolhidos e medicados, serem encaminhados para adoção.

A exemplo de muitas prefeituras, de inúmeros municípios brasileiros, também a Prefeitura Municipal de Florianópolis, se não tem, deveria ter um departamento especializado, com a tradicional “carrocinha”, e funcionários treinados para a captura e o recolhimento dos cães de rua, desejosos de serem adotados.

22 de jun de 2007

Relembrando



por Luiz Rogério de Carvalho


Cabecinha branca, conversador, tranqüilo e sereno, com seus mais de setenta anos de idade, tinha atitudes e pensamentos de jovem, que contagiavam, e era exemplo para todos que o conheciam.

Era um homem franzino, mas com uma grande disposição para o trabalho, os mais rústicos e pesados, que poucos moços o acompanhavam nos árduos afazeres da vida campeira.

Chegando na casa de qualquer vizinho, onde estivessem executando algum trabalho, mesmo sem perguntar se precisavam de ajuda, logo tomava a iniciativa e, sem que se percebesse, já lá estava ele com as mãos na massa, e destacava-se pela eficiência.

Assim era "seu" Jany, pequeno proprietário rural que, além do trabalho na sua propriedade, cuidando de suas criações, que eram uma beleza, também prestava serviços para os fazendeiros da região.

Homem de confiança, e despachado, sempre muito procurado, tinha sua agenda sempre cheia.

Nos domingos e feriados, muitas vezes tive a satisfação de receber a visita daquele velho e saudoso amigo que, chegando sem alarde, na sua bonita e bem encilhada égua tordilha, apeava e ia logo dizendo que vinha para “um bom dedo de prosa”.

Contando suas histórias campeiras, sempre interessantes, na varanda de minha casa, no verão, ou à beira do fogão, no inverno, ao sabor do chimarrão, as horas passavam alegres e despercebidas.

Estimado por todos, na região, era conhecido também pelo fato de que não admitia falhar, nem consigo, nem com os outros.

Contam, seus conhecidos mais antigos que, certa vez, combinou com um fazendeiro da região, que este passaria na sua casa às cinco horas da manhã, para fazerem uma lida na fazenda.

Tendo ido dormir muito tarde, e cansado, quando o fazendeiro chegou, de madrugada, e buzinou na frente da casa, chamando, "seu" Jany acordou-se, assustado, pois tinha perdido a hora de levantar, coisa que nunca lhe tinha acontecido.

Quando o fazendeiro o chamou, ele, de pronto respondeu, lá do quintal: estou aqui "seu" Antônio. Estava com a enxada na mão, capinando, e só de cuecas.

Não sabia o fazendeiro, que ele pulara a janela, e simulava um trabalho, para não ser surpreendido ainda na cama, coisa que jamais lhe acontecera, e que o faria sentir-se ferido no seu orgulho de homem cumpridor de suas obrigações.

Aquele homem simples e trabalhador, bom e prestativo, que nunca se queixou de nenhuma doença, de repente sentiu que suas forças estavam faltando, seu trabalho já não rendia como antes, embora a vontade ainda fosse férrea.

A dor começou a maltratá-lo, a pele foi amarelando, e estava emagrecendo tanto, que teve de ser levado ao hospital, onde foi diagnosticado câncer no fígado, em estado bem avançado.

Fui visitá-lo, no Hospital Nossa Senhora dos Prazeres, em Lages, e ele, cheio de esperança, dizia que precisava voltar logo para o sítio, porque tinha as ovelhas para tosquiar, a roça de milho para colher, e os terneiros, recém nascidos, para cuidar.

Não viveu muito, pois, embora acostumado às árduas lutas da vida campeira, não conseguiu vencer a última batalha, contra a doença. Em pouco tempo o levamos para a sua última morada, no cemitério da Vigia.

Na lembrança de seus amigos, e de quem o conheceu, ainda continua vivo e alegre, contando suas longas e divertidas estórias e histórias, acontecidas nos campos da Coxilha Rica.


13 de jun de 2007

Tributo à Memória de meu Pai



por Luiz Rogério de Carvalho

José Arruda de Carvalho, Zeca, como carinhosamente era chamado, foi um homem sempre preocupado com a humanidade, que viveu seu tempo como um verdadeiro cristão.
A caridade foi uma das principais preocupações em toda sua vida. Dividir o pão com seu semelhante constituía sua grande alegria, pois o sofrimento de quem sentia fome era, para ele, motivo de grande tristeza. Por isso, da porta de sua casa, jamais alguém voltou de mãos vazias.

Quando morou em Lages, ainda novo, muitas vezes recolheu, para dormir na sua “Alfaiataria Carvalho”, mendigos que estavam dormindo na rua, e expostos ao inclemente frio do inverno serrano; lembro-me, também, de uma ocasião, em Florianópolis, quando um desconhecido dizendo estar com sua filha doente, internada no Hospital Infantil, disse que não tinha onde dormir, por não poder pagar um dormitório. Meu pai, consternado com a situação aflitiva de seu semelhante, não teve dúvidas, o levou para dormir em seu apartamento, não se preocupando com o risco que poderia ter corrido, por hospedar um estranho.

A bondade, com que sempre tratou todos, crianças, jovens ou velhos, fez dele um homem que, mesmo discordando de opiniões contrárias às suas e, às vezes, de forma veemente, nunca abandonou a urbanidade em suas relações pessoais.
Generoso para todos e, extremamente amoroso com seus familiares e amigos, sempre foi um defensor intransigente dos oprimidos e tolerante com os fracos, nos quais sempre encontrava alguma qualidade para enaltecer.

Por toda as suas qualidades e virtudes, que o fizeram credor de amizade e simpatia em todos os lugares por onde passou, tenho a certeza de que sua alma encontra-se em algum lugar sagrado, onde habitam os espíritos iluminados.
Seu corpo material que, consternados, devolvemos à terra, certamente, reintegrado à natureza, também viverá, nos mares, nas praias, nas águas dos riachos e das cascatas, no cantar sonoro dos pássaros, no perfume das flores e no verde das florestas que, em vida, ele tanto amou e preservou, plantando e regando árvores, tantas, que alegre viu frutificar.

Da sua existência na terra, percorrida com trabalho e dificuldades, mas, também permeada de amor, esperança e alegria, ficou, como legado mais precioso, para seus filhos e amigos, a lembrança imorredoura e o exemplo de uma vida digna.


6 de jun de 2007

Amigos Inseparáveis



por Luiz Rogério de Carvalho


Eram cinco amigos, inseparáveis. Volnei, o mais velho, o líder, aquele que sempre orientava os outros nas brincadeiras, e até nas molecagens que faziam na rua, nem sempre muito ortodoxas. Era o filho mais novo de uma família numerosa. O pai dele, “major” Otacílio, cartorário, homem sisudo, de poucas palavras, mas, de muito bom coração, e preocupado com o futuro do filho e de seus amigos, que ele sabia ser uma turminha da pesada, preocupante...

A casa do Volnei era o ponto de reunião da turma, e refúgio daquele que, durante a semana, por algum motivo estava, temporariamente, de bronca com seus pais.
Tinha também o Emir, o “turco gordo”, filho do seu Jorge da venda, e da dona Samira. Ela, sempre alegre e bonachona, nos convidava para saborear os saborosos quitutes da cozinha árabe que, como ninguém, sabia fazer. O Emir, grande gozador, era o algoz do seu irmão mais velho, que tocava violino e pensava ser um futuro “Paganini”. Altino, o italiano, estava sempre risonho, contando piadas picantes e fazendo planos para o futuro. Era filho do seu Otto e da dona Custódia. De seu Otto, a gente pouco sabia, pois, pouco estava em casa. Sabíamos que era contador de uma madeireira, de um parente, e mais nada. Já a mãe do Altino, a dona Custódia, sempre chamando a todos de meus filhos, era de uma grande doçura, igual à geléia de uva que fazia. Embora trabalhasse muito e, por causa de um antigo reumatismo, sentisse fortes dores nas mãos, estava sempre alegre e disposta.

Paulo e Rafael, filhos do alfaiate, eram dois meninos que muito cedo começaram a trabalhar, como jornaleiros, e agora faziam parte daquela divertida “turminha da pesada”, de estudantes gazeteiros que, aos domingos, depois de vender, na fila do cinema, suas velhas revistas “de quadrinhos”, invariavelmente, iam assistir ao seriado do Flash Gordon, no antigo Cine Carlos Gomes, que tinha o apelido de “Cine Poeira”.

Tudo corria bem com a turma, até o dia em que, tentado a brincar com o perigo, Volnei pegou o revólver do seu Otacílio e, com ele na cintura, convidou os outros amigos para um passeio no campo, nas proximidades da cidade. Depois de muito caminhar, sentados para descansar, à beira da estrada, Volnei, ingenuamente, brincando com o 38, sem perceber, fez disparar um tiro que, para acabar com a alegria da aventura, teve um triste destino. A bala atingiu a barriga do Altino, e atravessou o seu intestino, fazendo várias perfurações.

Desesperados com o fato de ver o amigo ferido, e sangrando, todos juntos, na primeira carona que apareceu, balançando aos pulos da velha camionete Chevrolet 46, levaram Altino para o hospital, onde chegaram suando de nervosos e de medo.
Depois de uma longa espera, a primeira informação foi de que o amigo estava sendo operado, e seu estado era crítico.

Foram dias de angústia e expectativa, já que a vida do amigo corria real perigo.
Os amigos, e também suas mães, em suas orações, pediam a salvação e o pleno restabelecimento de Altino. Suas preces foram ouvidas, e depois de muitos dias hospitalizado, o “italiano” apareceu, muito pálido, pois perdera muito sangue, mas, já em plena recuperação.

Foi grande a alegria de todos ao saberem que o amigo estava, finalmente, salvo.
O impacto que esse fato causou naquela turminha, sem dúvida foi um marco divisório em suas vidas. Talvez aquele período de espera, angustiante, e a torcida pela vida do companheiro, tenham servido para reflexão e para a tomada de um novo rumo.

Todos voltaram a interessar-se mais pelos estudos, e maior senso de responsabilidade instalou-se em cada um, fazendo com que, embora subsistisse a mesma amizade, ela tenha amadurecido.
Os anos passaram-se, e os amigos ficaram distantes, no tempo e no espaço.

Volnei foi servir no Batalhão de Suez, ficou por lá bastante tempo, quando voltou, não demorou muito em Lages, logo foi para o Rio de Janeiro, onde concluiu o curso superior.Ingressou na Varig, que parece ter sido seu primeiro e único emprego. Muito competente e dedicado, acabou promovido a gerente, em Los Angeles, onde encerrou a carreira, com merecida aposentadoria.

Não agüentando a saudade, voltou ao Brasil. Hoje, casado e feliz, mora no Rio de Janeiro, em Copacabana.

Altino, entre Blumenau e Itajaí, sempre idealista, e sempre interessado em atividades culturais e literárias, acabou abrindo uma livraria em Blumenau. Mais preocupado com a literatura que com o comércio, a “Livraria Don Quixote” teve vida curta. Foi para Itajaí, estudou direito e hoje é cartorário em Itapema, cidade praiana do litoral catarinense. Continua o mesmo italiano de cabelo espetado, simpático e amigo de todo o mundo, e quando duvidam das histórias de sua juventude, que alegremente conta aos amigos, abaixa a calça e mostra, na barriga, a cicatriz da operação, feita para consertar o estrago que uma bala 38 fez no seu intestino.

Emir, o alegre e gozador “turco gordo”, com toda a família, mudou-se para Curitiba, formou-se em engenharia, casou-se e continua morando na capital paranaense, onde dirige uma bem sucedida empresa de construção civil.

Paulo, depois de mudar-se para Blumenau, onde estudou e teve uma longa atuação como líder estudantil, para manter-se, trabalhou em várias empresas, terminando como propagandista de laboratório até mudar-se para Porto Alegre, onde se formou em Direito. Ingressou no serviço público e, hoje, também aposentado, advoga um pouco, levando uma vida tranqüila, pois os filhos já estão formados e encaminhados.

Rafael, cedendo aos encantos da primeira paixão, casou-se muito novo, ainda franguinho. Por isso, necessitando trabalhar para sustentar a família, interrompeu os estudos, e muito cedo deixou Lages e a turma, indo morar em Blumenau, onde só muito mais tarde voltou a estudar. Concluiu o curso de Direito, advogou durante algum tempo, ingressou no serviço público, e hoje está aposentado, morando em Florianópolis, onde contempla as belezas da ilha, reúne-se com os amigos, escreve algumas reminiscências, e curte os netos.

Antes de mudar-se para Florianópolis, Rafael, já aposentado, e morando no sítio, na região de Lages, num belo dia, chegando para almoçar no restaurante do Lages Hotel, ainda pensando nas compras que iria fazer, para atender às necessidades de sua gostosa e curta vida rural, eis que, na porta do hotel, foi surpreendido com a agradável presença do velho amigo Volnei, que não via há mais de 40 anos. Depois de um grande e afetuoso abraço, Volnei disse que estava ali porque tinha vindo do Rio de Janeiro, com um único objetivo: na noite anterior tinha promovido um reencontro festivo com os amigos, o que acontecera no melhor clube da cidade, e com traje à rigor. Durante a conversa, entre risos de alegria, Volnei contou da aflição da sua procura pelos amigos, e da tristeza de não ter encontrado dois da antiga “turminha da pesada”. Um deles era o Paulo, de quem, por mais que procurasse, não conseguira o endereço. O outro, era Rafael que, embora estando a poucos quilômetros dos amigos festeiros, morava numa região rural e de difícil comunicação.

Este encontro foi breve, pois Volnei esperava a condução que logo o levaria ao aeroporto, no seu retorno para o Rio de Janeiro, mas, também foi o tempo suficiente para, durante o almoço, recordar bons momentos, e marcar uma data para um novo reencontro e, desta vez, esperam contar com a sorte, para reunir os cinco amigos da antiga “turminha da pesada”.

5 de jun de 2007

Em São Joaquim


por Luiz Rogério de Carvalho

Era lá pelo ano de 1946, nossos pais morando no sítio das “Três Pedrinhas” que, na época, ainda não tinha escola, Pedro e eu estudando em São Joaquim, morávamos na casa da vó Júlia, ali bem pertinho do Grupo Escolar Manoel Joaquim Pinto, onde estudávamos.

De manhãzinha, depois de chamados pela vó Júlia, que nos acordava bem cedo, era nossa obrigação colocar os pirulitos nos tabuleiros, pois a vó Júlia que levantara muito mais cedo já os tinha preparados. Estavam prontinhos para serem vendidos por nós, durante o recreio do colégio. Essa venda representava um complemento importante na renda de minha vó, viúva e com parcos recursos. Mulher de valor, que tendo ficado viúva aos vinte e oito anos, sozinha, conseguiu criar e educar seus seis filhos.

Pedro e eu tínhamos nosso tempo de recreio tomado pela tarefa de vender os gostosos pirulitos que vovó fazia. Por isso, pouco tempo nos sobrava para as brincadeiras, que eram representadas sempre pelos brinquedos da época. Jogo de bolinhas de vidro, bilboquê, pião, etc. Só depois de vendidos todos os docinhos de minha vó é que nós íamos brincar, aproveitando o restinho do tempo de recreio.

Como compensação, depois de feitos os deveres da escola, à tarde, podíamos brincar à vontade.

Nossa diversão preferida, especialmente no verão, era ir nadar no “pocinho” do seu Júlio Cantalice. Lá, passávamos boa parte da tarde, nadando e mergulhando nas águas claras do rio São Mateus.
Para alegria da garotada, que lotava o “pocinho” , bem próximo, havia um pomar de maçãs, de propriedade também do seu Júlio, onde a gente se divertia e se deliciava com as maçãs, que o velho cultivava, tudo entre risos e brincadeiras, até que o seu Júlio nos descobria, e assustados corríamos em disparada, fugindo do local, alguns ainda pelados, com as roupas na mão, e comendo as maçãs.